Sorteio de grupos da Taça das Favelas SP agita times para mais um ano da competição

O maior campeonato de futebol entre favelas do mundo é brasileiro e promove desenvolvimento esportivo e integração social

Por Guilherme Hofer e Lívia Falbo

A edição deste ano da Taça das Favelas São Paulo foi inaugurada no dia 3 de julho com o sorteio dos grupos. O evento ocorreu de forma online com transmissão do teatro da UNIP Indianópolis. A apresentação foi feita por Geovana Borges, vice-presidente da CUFA; Marcelo Cavanha, da CUFA-SP e Carla Silva, gestora de relacionamento de parceiros da ONG.

Na edição atual, 66 times competem na fase de grupos na modalidade masculina, com 22 grupos. Já na categoria feminina, 24 equipes disputam o prêmio, divididas em 8 chaves. Cada uma delas possui três participantes: os primeiros e alguns dos melhores segundos lugares se classificam – a quantidade ainda será definida. 

Os jogos começam no dia 25 de julho no Centro Esportivo Brigadeiro Eduardo Gomes, no Tatuapé, ao lado da estação de metrô Carrão-Assaí. Ambas as finais, que ocorrem no dia 31 de outubro, serão no estádio do Pacaembu com transmissão da TV Globo.

As vencedoras femininas de 2025, da Cidade Tiradentes, ficaram no grupo G, junto com as jogadoras da Seleção Heliópolis, que perderam a competição para as campeãs nas oitavas de final no ano passado. Fechando o grupo, fica a Favela do Campanário, que conquistou o título em 2023.

Chaveamento dos times femininos [Imagem: Reprodução/Youtube/@tacadasfavelas]

O time campeão masculino do ano passado, Favela da 13, de Guarulhos, entra somente nas fases eliminatórias. Essa vaga foi conquistada após terem levado o tricampeonato da taça das favelas na cidade metropolitana de São Paulo no dia 28 de junho.

Divisão dos grupos das equipes masculinas [Imagem: Reprodução adaptada/Instagram/@tacadasfavelassp]

O campeonato como oportunidade de mudança

A Taça das Favelas é o maior campeonato de futebol entre comunidades do mundo. Ela ocorre anualmente, e conta com times masculinos (com jogadores de 14 a 17 anos) e femininos (com jogadoras de no mínimo de 14 anos e sem limite de idade máxima). Além de influenciar jovens a praticarem esporte, o torneio possui uma função social. Antes das partidas são oferecidos workshops variados, onde são discutidos – com atletas e técnicos – tópicos como liderança, saúde mental, autocuidado e educação financeira. 

Projeto social

O projeto é promovido pela Central Única das Favelas (CUFA), uma organização não governamental criada por Celso Athayde há mais de 20 anos. Ela desenvolve atividades esportivas, culturais e educacionais em favelas, com o objetivo de incentivar uma integração social. “O trabalho em conjunto entre moradores de favelas e jovens voluntários é a base para construir uma sociedade mais justa e sem pobreza”, afirma a entidade no portal da Taça das Favelas.

Nesse sentido, Geovana Borges, em entrevista ao Central Periférica, explica os efeitos sociais que a Taça tem na vida desses meninos e meninas: “É o maior campeonato de futebol que existe entre favelas, onde é legítimo, onde o protagonismo é dele[a]. Ele[a] chega em uma final, disputa dentro de um estádio profissional como o Pacaembu, ao vivo pela Globo. Então aquele sonho de ser jogador[a] de futebol, é o mais perto que ele[a] chegou até este momento”.

Para a vice-presidente da CUFA, também é importante que sejam desenvolvidas outras oportunidades para esses jovens. Junto às marcas parceiras – que este ano incluem Friboi, Favela Seguros e Globo, por exemplo -,  a CUFA visa dar uma base àqueles que, por qualquer motivo, não sigam carreira no futebol, para que possam ter acesso à faculdade. 

Sobre os estudos e o voluntariado na CUFA, extra à Taça, Geovana cita seu próprio caso: “A minha história é típica de quem precisou parar de estudar para ajudar dentro de casa, não tinha como fazer os dois. Mesmo ganhando bolsa do FIES, eu não tinha dinheiro para ir para a faculdade”. Assim, o trabalho na organização foi essencial para que ela se desenvolvesse academicamente dentro dos processos internos da ONG para se tornar uma executiva. Ela comenta também como muitos voluntários que já são estudantes, a partir dos trabalhos exercidos – inclusive apoiando a própria competição -, puderam começar a atuar em suas áreas como jornalistas, fotógrafos e profissionais da educação física.

Janela de possibilidades 

Ao mesmo tempo, com o passar dos anos, a Taça continua e vem se tornando cada vez mais uma janela para que os jogadores deem início a suas carreiras profissionais no país. O exemplo mais famoso de cria da Taça, como são chamados os talentos revelados pelo torneio, é o carioca Patrick de Paula, craque do Botafogo. Ele começou jogando pelo Complexo Santa Margarida no Rio de Janeiro, participando de três edições do campeonato até ser descoberto pelo Palmeiras. 

Na versão paulista, nomes mais recentes vêm ganhando espaço, como Lucas Fernandes. Ele defendeu o Campanário Diadema em 2023, e foi chamado para a categoria de base do Corinthians, hoje jogando pelo time sub-20 do Goiás. Na categoria feminina, Iara Araujo se destacou após ter jogado pela Favela do BNH em 2019. Ela passou por vários times de prestígio como São Paulo e Atlético-MG, tendo feito no ano passado uma forte campanha no América-MG. Em 2026, foi chamada para compor o meio-campo do Grêmio.