Saúde mental nas periferias de São Paulo

Como funciona o atendimento para os moradores dessas regiões e como é a relação deles com as questões psicológicas?

Por Alícia Simões e Marte Politano

Oficina para bem-estar físico e mental no CECCO Mooca – Foto: Prefeitura de São Paulo

Nos últimos anos, as discussões sobre saúde mental tomaram as redes sociais, séries de streamings, reuniões de R.H. e salas de aula. Mas como é de fato o acesso das periferias a essas discussões e aos serviços focados em saúde mental? Entenda os limites e a importância dos serviços públicos para a saúde mental e qual é a situação atual destes serviços nas periferias. 

O que é o CAPS?

O CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ficou conhecido recentemente por memes na internet, que ironizavam a “loucura” dos pacientes e apelavam para um senso comum de que esse aparelho é algo equivalente a um hospício. Na realidade, os CAPS são pontos estratégicos de atendimento de atenção psicossocial, uma rede de serviços dentro do SUS, que são caracterizados pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo como “serviços de saúde de caráter aberto e comunitário, constituídos por equipe multiprofissional que atuam sob a ótica transdisciplinar”. Para a psicóloga Amanda Lowenthal, da PUC-SP, um dos pontos de destaque é o fato de haver “uma certa descentralização “, ou seja, essas equipes multidisciplinares trabalham de forma conjunta em todos os atendimentos. 

Segundo o site do Ministério da Saúde, os CAPS acolhem pessoas com transtornos mentais persistentes e dependentes químicos e oferecem os seguintes atendimentos:

  • Atendimento contínuo e acompanhamento singularizado.
  • Acolhimento de crises.
  • Apoio psicológico e terapias em diferentes formatos (individuais e em grupo).
  • Atividades terapêuticas, artísticas, culturais e de socialização para fortalecer vínculos e estimular a autonomia.
  • Orientação e apoio social para inclusão em escola, trabalho e vida comunitária.
  • Construção do Projeto Terapêutico Singular (PTS) junto à pessoa usuária e sua família.
  • Atendimento em rede, articulado com Unidades Básicas de Saúde, hospitais gerais, Unidades de Acolhimento, Serviços Residenciais Terapêuticos e outros pontos da RAPS.

Desafios do atendimento às periferias

Apesar de serem informações públicas, a existência e o funcionamento dos CAPS não são de conhecimento geral da população, especialmente daqueles com menos acesso à internet, o que pode acabar prejudicando a experiência dos usuários de um aparelho que já é insuficiente para as demandas que recebe. 

Thaiza Souza, estudante da USP e paciente do SUS, relatou que só conseguiu acessar os serviços do CAPS por direcionamento interno da UBS que frequentava. Ela disse: “Eu acho que é uma coisa muito interna, porque eles sabem que a demanda já é muito alta, então parece que é proposital essa não divulgação”. Além disso, declarou que a pouca quantidade de funcionários e o fato de a maioria dos atendimentos ser em grupo dificultam a eficiência do atendimento.

No mês de março de 2026, das 141 postagens no instagram do Ministério da Saúde, apenas três falam sobre saúde mental, ou seja, a divulgação não é eficiente como deveria.

Lara Albino, psicóloga pelo Mackenzie, que trabalha no SUS, corrobora a visão de sucateamento do sistema público, dizendo que “quando eu estava na UBS, a área cadastrada tinha em torno de 30 mil pessoas. Eu era a única psicóloga, então é completamente inviável (atendimento) individual. (…) E acho que eu diria que o problema principal é esse, a privatização que tem com as OSSs, organização social de saúde”.

Amanda Lowenthal, que também trabalhou no SUS, afirma que, além da falta desses serviços dentro das periferias, a parte mais triste do trabalho é a falha do primeiro atendimento em orientar corretamente o paciente, o que gera comentários como “Não aceitaram me cuidar no CAPS, para passar no CAPS, então você tem que estar muito mal, tem que estar querendo se matar…”, pois o CAPS é um serviço para pessoas em situação de crise. Casos menos urgentes e que requerem um acompanhamento constante psicoterapêutico provavelmente serão melhor atendidos numa UBS, segundo a psicóloga. 

A importância desses serviços

Apesar disso, todas as entrevistadas ressaltam a relevância e a potencialidade dos serviços de saúde mental da rede pública. Thaiza Souza aponta que, na sua experiência, conheceu muitos pacientes na faixa dos 40 a 50 anos, e que era perceptível o efeito positivo do atendimento do CAPS, que faz com que estes pacientes saiam de casa e conversem. 

Para Lara Albino, uma boa saída para os pacientes que buscam atendimento de saúde mental são os CECCOs, Centros de Convivência e Cooperativa, que são administrados diretamente pela prefeitura, abertos para todo o público e que oferecem diversas atividades de cuidado. 

Amanda Lowenthal frisa o mérito do CAPS, declarando que “Dentro dos CAPS há grupos super potentes, você vê pessoas que chegam absolutamente desorganizadas e elas conseguem se reorganizar sem passar, eu diria, por outras formas de cuidado muito problemáticas que talvez elas tivessem em outros momentos da história. E a gente tem uma coisa que é o vínculo entre os trabalhadores da saúde mental e os usuários do serviço. Você acompanha as pessoas às vezes muito de perto.”

Essas afirmações permitem reconhecer o mérito do SUS no atendimento de parte da população, e, justamente, que o CAPS não consegue atender questões “menos intensas” porque se compromete com algo extremamente difícil, que é dar atenção a pessoas em momentos mais agravados da saúde mental.