Rap é coisa de mulher: entenda como elas entraram, lutaram e dominaram o gênero musical
As mulheres sempre estiveram presentes na história do rap, no início elas estavam à margem, mas foram conquistando seu lugar e hoje se destacam nas plataformas
Por Helena Brambilla e Lais Fernandes
O rap, desde sua origem, surgiu como um mecanismo de denúncia social, tratando de temas como violência policial, desigualdade social e vivências nas periferias. Como forte formador de identidade, o gênero deu voz a diferentes grupos marginalizados. Apesar disso, durante muitos anos, quem narrava essas experiências eram, quase sempre, um homem.
Origem do Rap feminino
O rap feminino surge na cidade de São Paulo entre os anos de 1980 e 1990. Suas pioneiras são Dina Di, Negra Li, Rubia e Sharylaine. Esse estilo surgiu nas como forma de expressão cultural e social para as mulheres das periferias urbanas, com letras que abordam desde questões sociais e políticas até desafios enfrentados por mulheres na sociedade.
A Dina Di foi uma das primeiras mulheres a ser colocada no centro do rap, no grupo Visão de Rua. Herança do Vício(1998), primeiro álbum do grupo, retrata, na visão feminina, desigualdade social, encarceramento e violência policial. Dina Di passa a servir de inspiração para outras mulheres ao ser considerada uma das grandes pioneiras do rap.
O crescimento do rap nas periferias foi marcado pela participação de projetos sociais, entre eles o Projeto Rappers, criado pelo Geledés – Instituto da Mulher Negra. O projeto tem a proposta de apoiar as mulheres da cena do hip-hop na discussão de temas sociais em suas músicas. Essa articulação amplia a presença feminina no gênero e destaca o caráter político que as mulheres colocam em suas músicas.
Das margens ao mainstream
Entre o início dos anos 2000 e os anos 2020 as mulheres lutaram para ampliar seu espaço dentro do gênero. O crescimento das redes sociais permitiu que novas artistas publicassem seu trabalho e alcançassem um público maior. Nesse cenário, artistas como Flora Matos e Karol Conká foram descobertas.
Nos dias atuais, as mulheres transitam entre diferentes estilos musicais, como trap, funk e o próprio rap. Os nomes em destaque são de Duquesa, Ebony, Mc Luanna e Ajuiliacosta. Elas tratam o rap como espaço para afirmação estética e cultural, especialmente para mulheres negras e periféricas. A música se transformou em uma forma de empoderamento, afirmando as vontades e os gostos das mulheres como seres independentes.
Em entrevista ao Central Periférica, a artista Jô Maloupas, MC do grupo Odisseia das Flores, explica que “em uma sociedade historicamente patriarcal, as mulheres muitas vezes foram representadas apenas como musas, objetos de desejo ou personagens secundárias”. Ela acrescenta: “dessa forma, quando artistas mulheres reivindicam, por meio do rap, sua autonomia econômica, afetiva e sexual, elas rompem com esses padrões e apresentam novas possibilidades de existência e representação”.
Mulheres periféricas narrando suas próprias histórias
Com a consolidação das mulheres na cena, novas experiências passaram a ocupar espaço nas letras, ampliando o retrato das comunidades e trazendo perspectivas antes invisibilizadas.
Jô Maloupas destaca que questões como maternidade, responsabilidades familiares e o papel estrutural da mulher nas famílias aparecem com frequência nas canções. Ao retratar essas vivências, as artistas ampliam o alcance do rap como ferramenta de conscientização social e oferecem uma nova forma de compreender a realidade das periferias.
A artista ainda comentou sobre o papel social da produção artística, “o rap não apenas possibilita trajetórias individuais de ascensão social, mas também fortalece processos de empoderamento coletivo”. Assim, as experiências femininas são finalmente narradas pelas próprias protagonistas, o que promove sua autonomia e a produção de conhecimento sobre suas próprias vivências.
Rap maculino x Rap feminino
Embora as mulheres tenham conquistado maior visibilidade nos últimos anos, a desigualdade de gênero permanece presente na indústria do rap. A diferença aparece tanto na quantidade de artistas em evidência quanto nas oportunidades oferecidas pelo mercado. Em 2022, a pedido da Revista Observatório do Itaú Cultural, uma pesquisa identificou que apenas 8% do rap brasileiro é protagonizado por mulheres.
Artistas femininas passaram a utilizar o próprio rap para denunciar o machismo presente na indústria musical. A cantora Ebony se destacou nesse cenário ao lançar a música “Espero que entendam”, na qual cita nomes de diversos artistas do mainstream. A crítica, porém, não está direcionada às personalidades dos rappers, mas às estruturas machistas e misóginas que dificultam a ascensão das mulheres no gênero.
Ela encerra a canção com um recado direto ao público: “Isso que eu estou fazendo é necessário e não vou deixar que homens limitem qual é o tamanho que mulheres podem chegar”.
