Racismo nas categorias de base: quando a violência atravessa a infância e ameaça o futuro do atleta
O episódio no sub-12 entre Corinthians e Manthiqueira, expôs como o racismo continua moldando e limitando a formação de jovens jogadores no futebol brasileiro
Por João Gabriel e Maria Gomes
No momento em que a partida entre Corinthians e Manthiqueira, válida pelo Campeonato Paulista sub-12, foi interrompida após um menino de 12 anos desabar em choro no meio do campo, o futebol revelou mais uma vez que a infância negra segue vulnerável onde deveria estar protegida.
As ofensas vindas da arquibancada: “preto”, “sem família”, “filho da p***”, registradas em súmula, deixaram claro que o racismo acompanha a criança antes mesmo de qualquer sonho profissional. O jogo foi paralisado pelo protocolo antirracismo, e uma torcedora de 41 anos foi presa em flagrante por injúria racial, como confirmou a Federação Paulista de Futebol (FPF). A entidade classificou o episódio como um dos mais graves da temporada; ainda assim, o impacto emocional sobre o garoto permanece como marca difícil de apagar.
Quando a violência atinge o campo e a formação
A mãe do menino publicou uma carta descrevendo o que chamou de episódio “inaceitável”, afirmando que o filho já havia sofrido agressões verbais em outros jogos, a fala dela ajuda a entender que, para muitas crianças negras, a base não representa apenas treinamento e disciplina: representa também a constante necessidade de se defender de violências naturalizadas por adultos que ocupam arquibancadas, laterais de campo e até funções técnicas.
Até agosto de 2025, a FPF havia registrado 46 episódios de ofensas e hostilidades cometidas por adultos contra crianças nas categorias sub-11 e sub-12, número que supera o total do ano anterior. Nesse contexto, o futebol deixa de ser ambiente de formação e se torna um espaço em que a dignidade infantil é testada em público.
A reação das instituições reforçou o contraste entre discurso e prática: a FPF divulgou nota de repúdio, o Manthiqueira lamentou a cena envolvendo crianças tão jovens, o Corinthians se solidarizou com a família, e o atual presidente da FIFA, Gianni Infantino, declarou estar “enojado” com o caso e elogiou a arbitragem por paralisar o jogo. No entanto, a torcedora detida foi liberada no mesmo dia após a audiência de custódia, respondendo ao processo em liberdade, um caminho que revela como a responsabilização raramente acompanha o peso da violência sofrida por quem está no gramado.
Estruturas que moldam e limitam trajetórias
Ver um menino chorando no centro do campo não é apenas testemunhar uma ofensa, é observar a materialização de uma violência que atravessa gerações e que, na base, age silenciosamente sobre a autoestima e o processo de formação. Crianças que enfrentam esse tipo de ataque aprendem cedo que seu corpo negro, mesmo vestindo a camisa de um clube, não escapa da desumanização.
Esse cenário se repete a ponto de, em 2025, a FPF ter fechado os portões de 144 jogos das categorias sub-11 e sub-12 para proteger atletas mirins do comportamento hostil de adultos, uma medida emergencial da campanha “–Ódio +Futebol”, que indica a dimensão estrutural do problema.
Enquanto isso, clubes seguem sem mecanismos consistentes de acolhimento psicológico, sem formação antirracista permanente para técnicos, pais e equipes de apoio, e sem estruturas internas que ofereçam proteção real. Mesmo em categorias em que sonhos ainda estão sendo imaginados, a criança preta costuma ser tratada como alguém que precisa provar o tempo todo que merece estar ali.
O que revela a infância interrompida
O episódio no sub-12 do Paulista não é isolado, em março de 2025, o Internacional retirou seu time sub-18 de campo durante a Viareggio Cup, na Itália, após o lateral Kauã Barbosa denunciar ter sido chamado de “macaco” por um adversário, a equipe deixou a partida em protesto e o caso passou a ser investigado pelas autoridades do torneio.
Em maio do mesmo ano, um atleta sub-17 do Atlético-MG relatou ter ouvido ofensas racistas de um jogador do Racing-URU durante a Copa Futam Internacional; a organização excluiu o clube uruguaio da competição após análise das denúncias. Esses episódios, somados ao ocorrido entre Corinthians e Manthiqueira, reforçam que o racismo nas categorias de base é um problema sistêmico e que atravessa diferentes estados, instituições e faixas etárias, afetando a formação esportiva e emocional de jovens atletas negros.
Esse cenário é reforçado pelos dados mais recentes consolidados pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol: em 2025 foram registrados mais de 130 casos de racismo no futebol brasileiro, em comparação com 2014, o primeiro ano do monitoramento, o crescimento chega a 444%. Em outra pesquisa do Observatório, realizada em 2023, foi apontado que ocorreram 222 incidentes discriminatórios no futebol, deste total 195 ocorreram no Brasil e 74% dos casos aconteceram dentro dos estádios. Estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul concentram a maior parte das ocorrências.
Ao mesmo tempo, especialistas ligados ao Observatório apontam que as punições seguem, em muitos casos, brandas e incapazes de gerar transformação estrutural. Encaminhamentos como o registro em súmula, a prisão em flagrante ou a abertura de processos disciplinares são passos importantes, mas insuficientes sem políticas permanentes de acolhimento e educação antirracista.
Essas experiências acumuladas não apenas ferem; elas modificam futuros: há meninos que desistem, há meninos que seguem, mas carregam consigo o peso do que ouviram, e há também aqueles que, apesar de tudo, tornam-se atletas profissionais, mas não sem que essas marcas componham sua história.
A pergunta que o futebol brasileiro insiste em adiar
O episódio lamentável ocorrido com o atleta mirim do Manthiqueira é um lembrete de que ainda há muito a ser construído para que a base seja realmente, um espaço de formação. Não basta paralisar o jogo ou emitir notas de repúdio: é preciso garantir que nenhuma criança precise escolher entre o sonho de jogar futebol e a própria integridade.
Enquanto essa transformação não acontece, o esporte mais popular do país segue ameaçando seus próprios futuros talentos e a pergunta permanece aberta, repetida a cada novo caso: quem tem, de fato, o direito de sonhar dentro do futebol brasileiro?
