Racismo ambiental e a mobilização da ONG Despertar pelo direito ao meio ambiente
Processo discriminatório faz com que os impactos das mudanças climáticas sejam mais graves para áreas periféricas
Por Bárbara de Araújo, Marimel Feitosa e Rachel Mendes
Um mutirão realizado pela ONG Despertar foi o responsável pela revitalização do Córrego do Cordeiro, no bairro Cidade Ademar, São Paulo, nos dias 31/05 e 1/06. A mobilização, que teve a presença de jovens, artistas e ativistas de periferia, buscou transformar 400 metros do córrego em “uma área de respiro, verde e pertencimento”, segundo a organização.
A ação, intitulada “Despertar com o Rio”, contou com intervenções arquitetônicas pensadas por alunos participantes de cursos da associação. O resultado foi não só a limpeza do curso de água, mas também a instalação de ilhas flutuantes, o plantio de mudas de espécies nativas e uma frente de grafite e pintura de artes no chão.
Cecília Zanotti, diretora executiva da Despertar, defende que a grande participação de moradores da região no projeto se dá pelo desejo inerente da comunidade de melhorar o espaço onde mora. “Com um pouquinho de apoio, as lideranças aparecem naturalmente e já começam a engajar, a querer agir e a mobilizar outros vizinhos”, afirma.
Zanotti declara também que a ação de revitalização foi uma forma de combate ao racismo ambiental, visto que regiões mais nobres têm mais áreas preservadas do que as periferias. Para ela, toda a população tem o direito à natureza e a espaços de lazer.
“Meu sonho é que todos os bairros de periferia tenham suas águas limpas, seu esgoto tratado, seu lixo coletado, uma cobertura vegetal adequada, um solo que consiga absorver a água, para que não ocorram enchentes, e moradia digna para todas as pessoas”, revela Cecília.
“Crise climática é resultado do racismo ambiental”
Ana Sanches, doutoranda em Mudança Social e Participação Política na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH), explica que o racismo ambiental surge na medida em que as crises ambientais não afetam as pessoas de forma igualitária: “As injustiças climáticas têm cor e gênero”. Ela argumenta que populações racializadas – povos negros periféricos, indígenas e quilombolas – são as mais prejudicadas por atividades comerciais poluidoras.
Os efeitos destes empreendimentos chegam às populações marginalizadas na forma de falta de saneamento, ocorrência de alagamentos e deslizamentos de terra, carência de demarcação de terras indígenas e piora na qualidade dos alimentos, entre outros exemplos. Sanches alerta ainda que eventos climáticos extremos, cada vez mais intensos e frequentes, pioram as condições desta forma de desigualdade.
A pesquisadora defende ainda que o racismo ambiental é fruto do passado colonial brasileiro e causa do desequilíbrio climático. “Se a gente não tivesse escravidão e colonização, a gente não estaria vivendo neste contexto de crise climática”, diz Sanches.
PL da Devastação
Enquanto grupos minoritários sofrem com as consequências da exploração do meio ambiente, o Senado Federal aprovou, no dia 21 de maio, um projeto de lei que afrouxa as regras do licenciamento ambiental. Conhecido como PL da Devastação, o Projeto de Lei 2.159/2021 propõe a simplificação de etapas para a aprovação de atividades potencialmente danosas ao meio ambiente.
Entre as mudanças presentes no texto, estão a criação da Licença Ambiental Especial (LAE), que permite ao governo federal acelerar aprovações de empreendimentos considerados “estratégicos” por um Conselho do Governo; a ampliação da Licença por Adesão e Compromisso (LAC), que concede uma licença sem a necessidade de avaliações técnicas sobre impactos ambientais, e dispensa o licenciamento para certas atividades pecuárias.
Ambientalistas consideram o projeto um retrocesso, como é o caso de Ana Sanches: “[Esse PL] escancara como, em plena crise climática e ambiental, os nossos parlamentares ainda vêem o meio ambiente”. Ela ainda diz que, caso aprovada, a lei poderá ser muito prejudicial à saúde das pessoas, no que chamou de uma “política de morte”.
