Pobreza menstrual: um ataque à dignidade periférica

Ausência de estrutura sanitária básica impacta a saúde de pessoas que menstruam e vulnerabilidade intensifica-se nas periferias

Por Gustavo Santos, Letícia Menezes e Luana Riva

ONG distribui itens de higiene pessoal para pessoas que sofrem com precariedade menstrual nas periferias da Zona Oeste – Foto: Instagram/@sosabsorventes

A pobreza menstrual, caracterizada pelas múltiplas dificuldades no ato de menstruar, desde a falta de acesso aos absorventes, até a ausência de estrutura sanitária básica, atinge cerca de 11,3 milhões de pessoas.

Segunda uma entrevista concedida por Astrid Bant, representante da Agência das Nações Unidas para a saúde sexual e reprodutiva (UNFPA) à Unicef Brasil, a inexistência de condições adequadas para menstruar viola os direitos humanos de acesso à saúde e bem-estar, que distancia o Brasil a alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030.

Programas de combate à pobreza menstrual

Na tentativa de combater esse problema, as esferas federal e estadual criaram programas que auxiliam essas pessoas. O Programa Dignidade Menstrual, por exemplo, instituído em 2023 por Luiz Inácio Lula da Silva, oferece absorventes de forma gratuita para pessoas de baixa renda matriculadas em escolas da rede pública, ou em situação de vulnerabilidade. Já o Programa Dignidade Íntima possui a mesma ideia base, ajudar no combate à pobreza menstrual na rede estadual de educação, mas focada no estado de São Paulo.

Apesar de beneficiar muitas pessoas, como os quase 1,4 milhões de estudantes atendidos pelo programa Dignidade Íntima, a existência desses auxílios não é efetiva em sua totalidade, o que dá origem a ONGs e projetos complementares. Em São Paulo, na Zona Oeste, existem diversas iniciativas que atuam na tentativa de combater a problemática da pobreza menstrual em comunidades urbanas periféricas. Programas como Fluxo Sem Tabu, Cadê O Absorvente? e SOS Absorvente contribuem para garantir a dignidade menstrual das pessoas atingidas.

Em entrevista ao Central Periférica, Giovana Bernardinelli, psicóloga e voluntária do programa SOS Absorventes – projeto que surgiu na pandemia e assistiu os bairros Bonança, Jardim 1° de Maio e Jardim Novo Osasco e a região do Villa Lobos – conta: “Além de fornecer itens de higiene, a gente trabalhava com vidas”

O projeto reuniu um grupo de mulheres voluntárias que se organizavam para entregar kits de higiene pessoal nas periferias da Zona Oeste.  O SOS Absorventes teve duração de um pouco mais de um ano. “A gente contava o tempo inteiro com doação de pessoas, contávamos muito com a vontade do outro e não só com a vontade do projeto”, relata Giovana. Ela também afirma que o fim do programa ocorreu porque as doações ficaram escassas e houve problemas políticos internos.

Higiene como dignidade

A vulnerabilidade vai além do não acesso aos absorventes e atinge milhares de jovens. A precariedade menstrual também abrange a desinformação sobre o processo da menstruação, como utilizar um absorvente, quais alterações o corpo está sujeito e qual a importância de um médico ginecologista. 

No momento em que o conhecimento sobre o próprio corpo é impossibilitado  no contexto de pobreza menstrual, há também a negação de dignidade aos indivíduos afetados.

Para a voluntária e psicóloga, “a saúde mental dessas pessoas fica completamente abalada”, justamente por ser tirado delas o controle sobre si. “Você vê elas sendo colocadas em um lugar de que: eu não tenho controle do meu corpo; vou menstruar todo mês e me é negado o mínimo para estar limpa”, conclui Giovana.

“Elas não recebem a base da pirâmide para terem sustentabilidade diante de si.”

— Giovana Bernardinelli