Orgulho Periférico: vivência LGBTI+ nas Periferias
Celebrações e coletivos periféricos sustentam comunidade queer com auxílios, comemorações e mobilização de pautas e demandas
Por Nina Bozic e Renata Paes
Em sua primeira edição, o edital Favela com Orgulho, promovido pelo Coletivo Família Stronger, destinará recursos para dez marchas, paradas e caminhadas LGBTI+ realizadas entre junho — Mês do Orgulho — e dezembro nas periferias da cidade de São Paulo. Redigido pela vereadora Keit Lima (PSOL) ao lado da Rede Stronger e com destino de emendas parlamentares administradas pelo deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL), o programa disponibiliza até R$ 28 mil por projeto, além de infraestrutura como trios elétricos, palcos e banheiros químicos.
Mais do que celebrações, as marchas também funcionam como espaços de acolhimento e fortalecimento comunitário. Um Estudo do Instituto Pólis apontou que os atendimentos de saúde relacionados à violência LGBTfóbica se concentram em distritos periféricos da capital. Para Marcello Bonzão, membro do coletivo Família Stronger, essa realidade reforça a importância de iniciativas voltadas à população LGBTI+ nesses territórios. “Nas periferias, muitas pessoas LGBTI+ não encontram espaços seguros para viver sua identidade. A marcha acaba cumprindo esse papel de acolhimento”, afirmou em entrevista ao Central Periférica.
Falta de suporte e preconceito
O apoio à comunidade LGBTI+ ainda tem limitações e, atualmente, enfrenta uma situação de retrocesso. A receita de patrocínio da última edição da Parada LGBTQIAP+ de São Paulo — ocorrida no dia 7 de junho — sofreu uma diminuição de 60% em relação ao ano passado. A manifestação, conhecida por ser a maior do mundo, operou com estrutura reduzida e pouca participação de grandes marcas, que passaram de 11, em 2025, para apenas 4 em 2026.
Para Stronger, a diminuição na contribuição de empresas renomadas ocorre devido ao aumento do conservadorismo no país, especialmente neste ano de eleições. “O apoio à nossa comunidade varia muito, depende de fatores internos e dos donos das organizações. A elite brasileira é muito forte e só se importa com o lucro, com medo de perder o público conservador”.
Marcello, ao relembrar seus anos na organização de eventos LGBTI+ nas favelas, pontuou que a recepção geral oscila de hostil à receptiva dependendo do período. Segundo ele, a grande maioria do ódio e do preconceito se manifesta no meio on-line, com ameaças de ataques aos atos e aos envolvidos neles. “Esse ano, por exemplo, o planejamento da parada do Itaim foi mais difícil em razão de ameaças por nossos canais da internet. Presencialmente, nunca ocorreu um ataque de fato”, revelou.
“Nós incomodamos muito os conservadores. Por isso recebemos tantas intimidações deles”
Marcello Bonzão Stronger, membro do coletivo Família Stronger
O ativista também relatou que o preconceito e a rejeição a pessoas LGBTI+ ainda são frequentes. Stronger conta que sofreu bullying ao entender e assumir sua orientação sexual no ambiente escolar. Em contrapartida, encontrou uma rede de apoio em sua família desde o início: “Meus parentes foram muito receptivos e carinhosos. Fui recebido de braços abertos. Fui aceito e nunca deixei de ser amado”.
A experiência, segundo ele, é exceção para muitas pessoas da comunidade. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que, em 2025, o número de novos processos por injúria motivada por orientação sexual mais que dobrou em relação ao ano anterior. Já os processos por injúria motivada por identidade de gênero quase triplicaram no mesmo período.
Permanecer à própria quebrada
Para Marcello Bonzão, o principal papel da Família Stronger e de outros coletivos de orgulho periférico acontece longe dos trios elétricos. Está relacionado com a criação de um ambiente de apoio e cuidado para pessoas LGBTI+ que não encontram suporte em casa.
Segundo ele, é comum que jovens rejeitados pela família ou sem condições de se sustentar procurem ajuda no grupo. Nesses casos, os integrantes se mobilizam para oferecer orientação, apoio emocional e até auxílio material, formando uma espécie de família construída pela comunidade. “Nós acolhemos e ajudamos pessoas necessitadas com todo o tipo de auxílio. É realmente como uma família”.
Para o militante, esse sentimento de pertencimento é um dos motivos pelos quais o coletivo recebeu o nome de Família Stronger. Mais do que organizar eventos, o grupo busca garantir que pessoas LGBTI+ das periferias saibam que não estão sozinhas. “Quando o apoio da família biológica não existe, a comunidade se organiza para construir novos laços de cuidado e solidariedade”, resumiu.
A cidade de São Paulo conta com cinco Centros de Referência LGBTI+, organizações públicas de assistência e atendimento especializado à população queer urbana, separados por regiões da capital. Stronger classifica estes Centros como importantes fontes de informação e amparo para pessoas LGBTI+, principalmente por contarem com suporte e estrutura governamentais maiores do que de coletivos localizados. Apesar do elogio, o militante realça que não são o bastante: “O acesso a esses locais ainda é limitado, e a demanda é alta para poucos Centros. Muitos LGBTI+ nem conhecem a iniciativa”.
Celebrações coletivas
Stronger afirma que, além da manifestação de orgulho e força LGBTI+, os atos de celebração ou protesto mantidos pela comunidade queer também mobilizam pautas sociais e buscam conscientizar seus participantes. Marcello revelou que os eventos, além de exaltarem a comunidade, sempre tentam incluir outras pautas recentes e relevantes. A última edição da parada do Capão Redondo, ocorrida em novembro do ano passado, teve como tema o fim da escala de trabalho 6X1.
“Sem lutar não chegamos a lugar nenhum. Já atingimos muitas conquistas importantes – o direito do casamento, por exemplo. E vamos continuar lutando por mais”
Marcello Bonzão Stronger, membro do coletivo Família Stronger
De acordo com Marcello Stronger, as atividades LGBTI+ também costumam surtir efeitos sociais positivos sobre as comunidades em que ocorrem: “São eventos culturais, que atraem público e movimentam as economias locais. Nós sempre tentamos contatar artistas e coletivos da própria região, o que cria um senso de coletividade”.
O militante defende a permanência de marchas, caminhadas, paradas e outras ações e o fomento delas através de programas como o Favela com Orgulho como fundamentais não somente a pessoas queer, como também a trabalhadores e moradores periféricos no geral.
