O espetáculo ‘Favela de Barro- Instáveis Moradias em Queda’ faz da periferia a protagonista
A peça de teatro pós-épico convida o público a pisar no barro e ampliar a visão sobre as origens e a vida na favela
Por Ana Luisa Benedito
O grupo teatral Esquadrilha Marginália foi fundado em 2016 por jovens periféricos na cidade de Cubatão, Baixada Santista. Com o espetáculo “Favela de Barro- Instáveis Moradias em Queda” — que foi exibido no Sesc da Avenida Paulista entre os dias 5 e 22 de junho — eles trouxeram uma experiência questionadora e filosófica sobre a vivência na periferia, enquanto desafiam as noções tradicionais do teatro.
Durante o ato circular, os artistas Julia Victor, JùpïRã Transeunte, Luiz Guilherme, Jezuz Pereira, Michel do Carmo e Rafael Almeida utilizam de diversas linguagens para construir a narrativa dividida em quatro capítulos. O diretor Sander Newton revela que o processo de criação se deu através de pesquisas, discussões, registros e perguntas disparadoras que moldaram a história construída desde 2023.
Sobre a peça
A apresentação inicia-se com diferentes acontecimentos sobre o viver periférico ao remontar a vida cotidiana no local. A temática da formação das comunidades é abordada de forma histórica. Através de um relato que reconstitui o massacre dos Canudos e a quebra do acordo entre o Estado — que prometia moradia aos combatentes — e os soldados que tiveram de se mudar para o Morro da Providência, no Rio de Janeiro, conhecida como primeira favela do Brasil.
A atual desapropriação também é tópico, assim como as raízes socioculturais negras e indígenas e o apagamento e marginalização sofridos por elas. Destaca-se, também, o uso intencional dos quatro elementos — terra, fogo, água e ar — e a oscilação entre riso e tensão que serviram para atar a dramaturgia.
Segundo JùpïRã Transeunte, ator, produtor e escritor, a perspectiva do espetáculo vai muito além da violência e criminalidade frequentemente atrelada às periferias. “Nós somos atravessados por isso, mas a gente produz e passamos a ser potentes no que fazemos. Ao fazer música, atuar, escrever, pensar, somos sujeitos conscientes e podemos criar nossas próprias referências”.
A interação com o público também faz parte da construção de sentido da apresentação, intensificada pelo DJ Groovy, interpretado pelo produtor musical Breno Garcia. Ao fazer perguntas como “O que é favela?”, ele instiga os espectadores, tornando-se figura ativa que une as faixas de hip-hop e funk à voz política que fala a linguagem periférica.
A apropriação da cultura do favelado pela mídia também é pautada através da valorização da moda, música e estética. Ao simularem a chatuba de Cubatão, o elenco convida os espectadores a levantarem dos lugares e celebrarem o baile no centro do cenário. Uma moradora da cidade que estava na plateia apontou a similaridade entre a performance e a realidade.
O diretor Sander Newton reforça que os elementos foram organizados de modo a intensificar a fluidez entre os blocos, e que o improviso faz parte dessa ordenação. “A cada espetáculo a gente vai pulsando, e as coisas vão se transformando à medida que a gente apresenta. Está sempre em um processo de ressignificação”.
