O cuidar que deve persistir
A população idosa enfrenta dificuldades de se relacionar e manter relacionamentos
Por Isabela Ferro e Emmanuelita Emmanuel
Recentemente abordado pelo Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), o tema sobre as perspectivas acerca do envelhecimento populacional no Brasil tem repercutido e engajado pautas atuais. A temática faz referência às questões essenciais das sociedades contemporâneas: o eventual envelhecimento das populações devido à queda da taxa de natalidade e a uma menor taxa de mortalidade.
Em 2022, o Brasil possuía mais de 22 milhões de pessoas com ou acima de 65 anos, e a estimativa é que o número triplique até 2050. O país conta com um conjunto de leis que protege o bem-estar dessa população, o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei 10.741/2003), possuindo normas como a obrigação de possuir atendimento prioritário aos idosos em instituições públicas ou privadas. Apesar disso, a população idosa ainda enfrenta diversas dificuldades em relação a questões sociais.
Entre os principais problemas associados ao envelhecimento, a solidão é um dos mais recorrentes. Segundo a psicóloga Nathália Espindola, “a solidão é uma experiência interna, afetiva. Assim, é possível que pessoas socialmente integradas se sintam solitárias, ao passo que outras, que possuem menor convívio, tenham uma percepção positiva de autonomia e pertencimento”. Além disso, ressalta como influências externas e internas podem deixar o indivíduo mais suscetível a esse sentimento: “Esse fenômeno gradativamente se intensifica na velhice, pois, geralmente, ela acompanha transições estruturais e emocionais profundas, tais como, aposentadoria, perdas afetivas, redução da mobilidade, mudanças familiares e, muitas vezes, o enfraquecimento da participação social”.
Sentir solidão por longos períodos pode ser prejudicial para a saúde “no campo emocional, a solidão está associada a maior risco de depressão, ansiedade, sofrimento psíquico e perda de propósito. Seus efeitos também se estendem ao corpo: alterações no sono, aumento de cortisol, vulnerabilidade imunológica e piora de condições crônicas”. Sendo importante lembrar que “envelhecer com qualidade não depende apenas de prolongar anos de vida, mas de garantir que esses anos sejam vividos com dignidade, conexão e sentido”, conclui Espindola.
Relacionamentos e conexões
Em uma sociedade com altos estímulos diários, pode ser um desafio criar e manter conexões, mas a cuidadora de idosos a mais de 15 anos, Rosa Maria Viena, nos conta um pouco sobre seu trabalho e como a sua relação com os seus clientes impactou positivamente a sua vida, ressaltando a importância de comunicação, paciência e integração.
“Os idosos precisam, primeiramente, de muita conversa. A gente escuta o que eles têm a falar. Não costumo usar a palavra “não” para eles. Sempre concordo, mesmo se eles estiverem falando coisas sem nexo. Em alguns momentos eles se lembram do contexto e falam, ‘não, não é assim, não.’ Aí, você pergunta para eles, ‘como que é, então?’ Portanto, é muita paciência para conversar. Eu tenho uma cliente de 100 anos. Ela gosta muito de planta. Então, a gente toma o cafezinho da manhã, os medicamentos também, sempre, comunico para ela os medicamentos que está tomando, falo ‘ó, esse aqui é para tal coisa’, sempre deixando ela a par daquilo que está fazendo.”
A cuidadora compreende essa fase da vida como qualquer outra, mas com cuidados distintos, por isso, acredita ser essencial manter os clientes ativos e engajados.
“Fazermos caminhada, pelo menos uns 10 a 15 minutos, mesmo que for sentado, 5 minutos em pé e senta por 5 minutos. Fazer atividade com eles ajuda muito. Brincar também ajuda muito, às vezes brincamos de bola. Eu sento numa cadeira, ela senta na outra, eu jogo bola e ela joga pra mim. Além disso, fazemos atividades como bordado e crochê, procuro saber o que eles faziam quando eram mais jovens e nunca forço nenhuma ação. Mas tem idosos que sempre foi, tipo, parado. Não lia jornal, passava o dia mexendo no celular, no computador e hoje não enxerga mais, então a gente tem que procurar outro tipo de coisa pra fazer. Tem que criar. Criar novos hábitos. Hábitos para preencher o dia deles.
Em uma sociedade, como a atual, em que as relações sociais se afrouxam com mais facilidade, e que o sentido social vai se esvaziando, dar espaço ao outro e deixar o individual, é difícil. Contudo, segundo Viena, é essencial para aprendermos a conviver e estabelecermos essas conexões que são tão importantes.
É difícil ver um parente doente porque temos todo o histórico sobre aquela pessoa na nossa mente. Ela era brava, ou ela era autoritária, ou ela era um doce de pessoa. Ela sempre conversava e de repente você vê a pessoa toda confusa, toda diferente, apaga aquela imagem que você tinha sobre ela. Isso entristece muito. Eu acho que a família inteira fica doente. Às vezes trabalhamos mais com a família do que com o próprio idoso porque você tem que trabalhar a mente da família, pra eles não abandonarem o idoso assim que o profissional chegar, entregar na mão da gente e sair, porque quer fugir. O idoso fica mais feliz com a família.
Viena conclui resumindo a sua experiência de trabalho, considerando os seus 15 anos nessa profissão mais como uma troca do que ocupação.
“Eles precisam muito que a gente os auxilie. E, no mesmo momento, eles querem ter a vida deles. Então, foi uma troca. Eu vivi com eles. Eles me ensinaram a viver. E eu coloquei a minha experiência com eles.”
