“O Brasil não pode declarar guerra às comunidades pobres”, diz a advogada Dina Alves

A operação policial realizada Rio de Janeiro teve 122 mortos e é considerada a mais letal da história

Por Débora van Pütten e Ana Carolina Mattos

Foro: Acervo Pessoal/Dina Alves

A capital do Rio de Janeiro enfrentou mais uma megaoperação policial no dia 28 de outubro. Chamada Operação Contenção, a justificativa dada pelo governo estadual para sua realização nos complexos do Alemão e da Penha foi o combate ao crime organizado, em especial o Comando Vermelho. 

O Central Periférica traz a entrevista completa feita para a última edição do jornal Notícias do Jardim São Remo. As perguntas foram feitas pelos repórteres com base em declarações de  moradores da comunidade São Remo, em São Paulo, e em matérias sobre o assunto.

A entrevistada foi Enedina do Amparo Alves, advogada, doutora em antropologia e feminista negra abolicionista. Ela também é presidenta da Comissão de Diversidade Sexual, Racial e de Gênero da OAB/Iguape e é pesquisadora na área de justiça criminal, raça e gênero. Atuou como advogada ativista no caso Luana Barbosa dos Reis Santos e já recebeu prêmios como o Esperança Garcia (OAB/2023) e o Clóvis Moura e Beatriz Nascimento – Quilombação.

Alguns moradores classificaram a megaoperação no Rio como um sucesso e outros como um fracasso. Ao seu ver, o que torna uma operação contra o crime organizado algo bem ou mal sucedido? 

A operação foi um fracasso e um sucesso. Um fracasso, porque o que está por trás dela é a política genocida do Estado já denunciada pelo movimento negro e mobilizada em operações de guerra, com armamento de guerra, planejadas para o extermínio da juventude negra e das comunidades. A operação mostrou o poder letal do Estado e o monopólio da força contra comunidades vulneráveis. Nós [pessoas negras] estamos morrendo, somos alvo desse sistema. É um fracasso quando pensamos sobre humanidade. Ao mesmo tempo, é um sucesso na medida em que o Estado cumpre seu dever com a política de extermínio da comunidade negra historicamente pensada desde a escravidão e a pós-abolição. O governador [do Rio, Claudio Castro] e a mídia hegemônica a anunciaram como um sucesso, já que a ideia é que se combate o crime organizado. Eu li vários comentários em reportagens sobre esse massacre e percebi parte da população aplaudindo o que o governo fez. Aplaudiram até na missa, o que me deixou horrorizada. Muitas pessoas conservadoras, religiosas, aplaudindo a morte das pessoas consideradas más na sociedade. Então, ela carrega essas duas vertentes. O Brasil tem legislações de proteção dos direitos humanos e assinou convenções internacionais de proteção desses direitos, mas todos esses princípios constitucionais foram violados. Tais violações são uma das expressões mais brutais do racismo estrutural, da necropolítica [instituições como o governo decidem quem merece morrer e quem merece viver], e elas assumem formas múltiplas e recorrentes. Aqui [em SP] tivemos a Operação Escudo com as mesmas características da operação no Rio, como execuções sumárias, prisões e apagamento histórico e simbólico das vítimas, que foram as pessoas assassinadas, mas também as vítimas das outras formas de morrer, como os familiares e os territórios devastados diante desse genocídio. 

Ouvimos a seguinte frase: “As pessoas mortas na operação não estão nem aí para mim nem para você. Se tiverem oportunidade, podem fazer mal para você”. É comum esse sentimento no imaginário social de que ‘bandidos’ não se preocupam com vidas alheias e, por isso, não merecem viver. Para você, enquanto advogada criminalista, como esse sentimento surge e como ele se mantém? Tem a ver com necropolítica?

Sim, tem a ver com a política da morte que o Estado promove contra a população, sobretudo a população negra e indígena. Tem relação também com uma construção histórica, política e cultural do imaginário social que coloca negros como bandidos, preguiçosos e feios. Trata-se de uma construção antiga, que faz parte da nossa história enquanto povo escravizado. É sobre o corpo negro que foi capturado para o exercício do trabalho, mas também para ser receptor da violência do Estado. Esse imaginário de corpo receptor da violência — do negro amarrado no tronco sendo chicoteado ou do negro em fuga — é produzido ao longo da nossa história e não sai da mente das pessoas pós-abolição. A escravização durante séculos não se apaga no momento em que recebemos uma carta de liberdade, o imaginário que a rodeia já está consolidado e as práticas violentas são baseadas nele. Falar que todos os vitimados são bandidos, associar favela e criminalidade, tudo isso reforça o imaginário que é mecanismo central da colonialidade do poder. Daí temos o ‘bandido bom é o bandido morto’, que nada mais é do que uma atualização desse imaginário. Quando há uma operação como essa, com vários corpos, na sua maioria negra, estendidos no chão e a população fala ‘bandido bom é bandido morto’ e o governo fala ‘eram todos traficantes’, a violência concretiza a “paz social”, que passa a existir a partir da morte de quem é considerado mau. Independente do vínculo dos mortos com o crime organizado, a Constituição brasileira não institui a pena de morte, mas é interessante pensar que mesmo assim vivemos em um sistema que imputa penas de morte contra determinadas pessoas. De um lado, temos um ex-presidente da república com todos os direitos garantidos, usando tornozeleira eletrônica mesmo com tantos crimes, pois é o direito dele. De outro, temos um massacre de pessoas negras em um visível sistema de pena de morte. O Estado comete crimes contra grupos específicos e uma parte da população legitima a violência através dos discursos. ‘Se o meu vizinho é traficante de drogas e ele é preto, então tá certo a polícia entrar e fazer uma execução sumária’, ou seja, suspendemos o estado democrático de direito para exterminar.

“O ‘ser envolvido’ com o crime já é a própria sentença da morte. Uma morte social, jurídica e física”

– Dina Alves

Em conversas com moradores [do Jardim São Remo], ouvimos afirmações que se baseiam na diferenciação entre o bom e o ruim. O bom sendo o ‘policial pai de família que morreu trabalhando’ e o ruim sendo o ‘bandido’. Essa dualidade dificulta o entendimento dos limites entre o combate ao crime organizado e a violência policial? 

A construção do negro como bandido e a construção do policial como bom e salvador da pátria são construções sociais. O ‘ser policial’ por si só significa ‘ser bom’ para parte da população, há um olhar para esse agente como defensor da paz e da liberdade e como protetor. Essa construção é feita em detrimento da própria classe trabalhadora que está ali nas comunidades e que não recebe apoio e proteção da polícia, uma instituição que desde o Brasil colônia veio para proteger a nobreza, combatendo os negros desde sua origem, já que perseguiu, por exemplo, os que estavam fugindo para quilombos. Outro papel dela era disseminar medo: se fugir, vai morrer. Esse papel é exercido até hoje, a polícia mata negros e dá um recado da punição exemplar a toda a sociedade, especialmente nós negros e negras. As famílias levarem os corpos para a praça pública, para velar seus mortos, para mostrar o requinte de crueldade, foi um ato político muito importante, porque mostra a crueldade e a maquinaria genocida do próprio Estado. A categoria de inocente, de vítima é racialmente pensada para brancos e, da mesma forma, para a polícia. Por isso, em massacres, genocídios, inquéritos de homicídios cometidos por policiais contra civis, a tendência é inocentar os militares.

Moradores críticos à operação disseram que ‘matar não vai resolver o problema’. O que é uma forma eficaz de combater o crime organizado?

Na época que a Benedita da Silva era governadora do Rio de Janeiro, houve um trabalho de desmantelar o crime organizado sem matar pessoas. Uma operação precisa de planejamento estratégico, de inteligência, de investigação e de análise de dados. O Brasil tem estudiosos da segurança pública preparados para isso. O mapeamento de redes criminosas talvez tenha que mudar o território, a geografia do espaço em que fazem rastreamentos financeiros, por exemplo, já que isso provavelmente não estará nos territórios empobrecidos. Precisa também de órgãos que façam a vigilância em relação à atuação policial e em defesa dos princípios democráticos, coisa que o Ministério Público não faz (pelo contrário, já que ele arquiva processos de policiais assassinos). Outro ponto importante é o respeito aos direitos humanos, à preservação da vida e da integridade física das pessoas, inclusive do próprio policial. A Constituição precisa ser respeitada e precisamos de protocolos de uso proporcional da força, não temos um protocolo de atuação policial no país. Outra questão importante que o Brasil precisa fazer é a produção de dados sobre a efetividade dessas operações. A operação, o combate a organizações criminosas tem que ser parte de uma estratégia de governança territorial, anti-racista e não apenas uma incursão armada, violenta e sanguinária que o Estado produz.

A ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) das Favelas foi validada em abril pelo STF. O conjunto de regras dita como operações policiais devem ser feitas e Castro já se referiu a esse instrumento como ‘maldita’. Qual a opinião da senhora sobre a ADPF? 

A ADPF foi uma ação do STF tomada justamente em um momento com número absurdo de [casos de] violência policial, principalmente no Rio de Janeiro. Ele trata a ADPF como ‘maldita’, mas os policiais nem a respeitaram, eles continuaram fazendo incursões nas favelas do RJ. O que temos falado é que a polícia é tão descontrolada no Brasil que a mais alta côrte do país precisa tomar essa decisão. Ainda assim, a decisão é desrespeitada pelas corporações. Ela é muito importante, mas não foi obedecida, inclusive nem na pandemia, quando surgiu. A ADPF vem como a ponta do iceberg para discutirmos o fim da polícia militar no nosso país. Mais do que nunca, depois de um massacre como esse, precisamos repensar a polícia brasileira, tem que ser o debate do dia. É assustador quando as próprias comunidades legitimam a ação policial, talvez sem uma compreensão aprofundada de que essa própria polícia é a que vai entrar no seu território e vai matar os seus. O Brasil não pode declarar guerra às comunidades pobres, mas a polícia quando faz incursão na periferia mata jovens, mulheres, crianças, idosos, quem ela vê na frente. Se a polícia não serve para pensar política de segurança pública humanizada, anti-racista, anti-violência, então não precisamos dela.

Tarcísio, o governador de São Paulo, se pronunciou e declarou solidariedade a Cláudio Castro. O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, se referiu à megaoperação como a mais bem-sucedida, ainda que ela tenha sido a mais letal da história. A senhora acredita que existe uma tendência no cenário político atual de apoio a operações cada vez mais letais? 

Com certeza, eu não tenho dúvidas e isso é muito assustador. Quando teve a Operação Escudo aqui em São Paulo, foram mais de mil pessoas presas e os dados de morte também são absurdos [em conjunto com a Operação Verão, somam mais de 80 mortos]. Isso sob o domínio do Tarcísio de Freitas e do Guilherme Derrite, que era o secretário de segurança pública. 

E a senhora acha que isso é uma tendência do Brasil ou é uma tendência mundial? Porque, por exemplo, os Estados Unidos agora passam por violações de direitos humanos muito graves com o ICE (Imigração e Alfândega dos EUA)

É uma tendência mundial. Olha Gaza, olha o que Israel está fazendo com a Palestina. Agora, não podemos esquecer que, sendo uma tendência mundial, a categoria raça é central nos massacres. Quando a gente fala a questão racial aqui para as nações da diáspora negra, a gente está falando da questão racial negra, da questão racial indígena, dos povos que não são brancos e que foram escravizados por pessoas brancas. Então, com certeza, essa é uma tendência mundial, porque cada vez mais a direita tem ganhado espaço na política, principalmente na América Latina, e há essa correlação de força também do mercado capitalista, dos interesses econômicos, políticos e partidários. Essa operação do Rio de Janeiro teve motivações raciais, mas também motivações político-partidárias e econômicas. Uma relação íntima, ainda, com a política dos Estados Unidos em relação ao combate do narcotráfico na Venezuela, na Colômbia, em todos os países latino-americanos que eles entendem como inimigos. Eu penso que as nossas expectativas para o futuro em relação à política da violência são desastrosas.

53% da população do Rio aprova o governo de Cláudio Castro e 64% dos moradores do estado do Rio de Janeiro aprovaram a megaoperação. Quais são as possíveis explicações para valores tão altos que incluem opiniões de pessoas de todas as idades, classes e gêneros?

A maioria das pessoas que apoia, apoia porque são pessoas negras executadas. Tem a questão da guerra às drogas, que é um pretexto da política do extermínio sob a retórica de naturalizar o próprio extermínio, o chamado mal necessário para a ordem pública, e não se trata de uma retórica só do governo, ela também pertence aos indivíduos que constituem a sociedade. Então, em qualquer bar, esquina, qualquer lugar que a gente vá, mesmo numa quebrada, você verá pessoas celebrando e reproduzindo esse discurso. A guerra às drogas é um posicionamento político, mas é também uma política de Estado racista e ela traz várias narrativas oficiais, como a da produção política do traficante. A produção política do traficante é uma produção de um personagem, o Brasil precisa disso para justificar uma guerra. Esse recurso, o inimigo fictício, somos nós, as populações racializadas do nosso país. A produção desses personagens vai justificar o extermínio, mas eu penso que as pessoas não acreditam nisso, apenas reproduzem por ser uma verdade oficial, ou seja, produzida pelo Estado, que vira consenso. Exemplo: todo homem negro na periferia, todo negro abordado e morto pela polícia é visto como traficante, por isso que mais de 60% da população apoia essa operação. Um destaque que eu acho importante fazer nessa situação é em relação às mulheres, porque a maioria delas não apoia a operação. Saiu uma reportagem assim. É muito interessante isso, porque a mulher é como um lugar de destaque e isso me traz uma reflexão sobre a Benedita da Silva no governo, que enfrentou o crime organizado sem uma gota de sangue ser derrubada. Nessa última operação, as mulheres que foram pegar os corpos. São as mulheres na linha de frente contra o terror, seja na favela ou na política, vamos lembrar de Marielle [Franco]. É importante pensar a segurança pública em uma perspectiva feminista também.

Se o crime organizado está em todo lugar, como o caso da operação contra o PCC realizada pela Polícia Federal na Faria Lima mais cedo esse ano, o que justifica o elevado número de operações em comunidades?

Se a polícia não faz incursão na Faria Lima e faz na Penha e no Alemão, é porque ela não está interessada no combate à criminalidade. A política da morte é uma política de estado, só podemos compreender esses massacres a partir da compreensão do que é uma necropolítica, um exercício do poder de matar alguém de forma seletiva. É sobre gerenciar a morte negra através de políticas de segurança pública que transformam a própria periferia em zona de exceção, o lugar onde se suspende direitos humanos. Se não é um combate ao crime em todos os locais em que se produz crime, então não é combate ao crime, ao crime organizado, às organizações criminosas, à guerra às drogas, é só um pretexto para o exercício da política com orientação racial.