Novo Ensino Médio: quais são as consequências para a rede pública de ensino?

Dois anos após a implementação, estudantes e professores relatam precarização no modelo

 

Por Enzo Campestrin, Fernanda Silva e Guilherme Farpa

[Imagem: Widally Souza/A Verdade]
[Imagem: Widally Souza/A Verdade]

O Novo Ensino Médio é uma medida de reforma educacional proposta e aprovada durante o governo de Michel Temer e implantada na gestão de Jair Bolsonaro. A lei de nº13.415, determina que 60% da caga horária do ensino médio continua com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), enquanto os outros 40% são destinados aos itinerários formativos divididos por áreas de conhecimento: Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, Ciências da Natureza e suas Tecnologias, Linguagens e suas Tecnologias, Matemática e suas Tecnologias e Formação Técnica Profissional. 

Além disso, o novo ensino médio exclui a obrigatoriedade de todas as matérias da BNCC, com exceção de Língua Portuguesa e Matemática, deixando as demais disciplinas como opcionais de acordo com a carreira preterida pelo estudante. 

Esses moldes provocaram consequências negativas para estes alunos que estão em fase de prestar os vestibulares, principalmente os que frequentam as escolas da rede pública. As provas de admissão continuam com os moldes tradicionais e exigem um conhecimento básico de todas as disciplinas da BNCC em alguma de suas fases. 

Maria Eduarda da Costa Pita, de 17 anos, conta que sente um déficit de aprendizado para as provas de ingresso nas universidades desde a implantação do novo ensino médio. A jovem conta que é frustrante ver que a pouca estrutura proporcionada às escolas públicas está sendo tirada dos secundaristas.

“Acho que o novo ensino médio veio mais pra atrapalhar do que ajudar, eles tem essa idéia que vão nos ajudar a nos “especializar na área de humanas ou exatas” mas a verdade é que não, isso não acontece. São várias matérias novas que a gente sabe que não vão ajudar em nada, tiram o nosso tempo de aulas que realmente são importantes, e essas matérias novas às vezes nem mesmo têm professor para nos ensinar. Alguns colegas meus do itinerário de exatas ficaram até o segundo bimestre sem professor de matemática, tem noção?”

Maria Eduarda Costa Pita, estudante da E.E. João Ramalho, em São Bernardo do Campo

Maria Eduarda está entre o meio milhão de estudantes representados pela ARES ABC, associação regional dos estudantes secundaristas do Grande ABC. É a entidade máxima de representação dos estudantes da região e responsável por organizar as suas reivindicações, tendo feito uma grande campanha contra o Novo Ensino Médio. O grupo entende que as propostas do novo formato de ensino não correspondem às necessidades dos alunos, dificultando o seu acesso às universidades.

A diretora de assistência estudantil do ARES, Emanoelly Barbosa, deu sua visão sobre as consequências da implementação do Novo Ensino Médio. Ela conta que muitos professores não têm qualquer tipo de formação nas disciplinas que precisam lecionar, havendo um despreparo das escolas em oferecer os currículos novos. Além disso, parte dos materiais necessários são disponibilizados unicamente em aplicativos, requerendo acesso a internet e dispositivos digitais, o que impossibilita que vários alunos assistam às aulas.

Emanoelly também conta que, apesar das falhas, o Ensino Médio antigo era mais adequado à realidade das escolas, principalmente com relação ao vestibular. Segundo ela, o método prévio “não era o melhor, porém o Novo Ensino Médio é um ataque ferrenho à educação como um todo, o currículo, os aplicativos e a metodologia, tudo é extremamente péssimo”.

Estudantes da ARES junto de outros movimentos estudantis em protesto contra as reformas no ensino médio [Imagem: Guilherme Farpa/Central Periférica]
Estudantes da ARES junto de outros movimentos estudantis em protesto contra as reformas no ensino médio [Imagem: Guilherme Farpa/Central Periférica]

Os pontos negativos não são apontados apenas pelos alunos, mas também pelos professores das escolas públicas. Bárbara Maia, professora de filosofia, sociologia e língua portuguesa na Escola Estadual Rosélia Braga Xavier conversou com a equipe da Central Periférica sobre os problemas do modelo de ensino em questão. 

Ela criticou o uso excessivo de plataformas online que sobrecarregam os estudantes que são obrigados a utilizarem estes ambientes digitais, para que a escola receba uma pontuação alta no MEC. Assim, o sistema gira em torno de uma lógica quantitativa sem considerar as particularidades e necessidades de cada região e indivíduo. 

A educadora ainda apontou que apesar de a proposta do novo ensino médio procurar direcionar o aluno para uma área específica do conhecimento que mais o interesse, a maioria de suas turmas encontra-se desanimada e continua enfrentando dificuldades para escolher uma carreira.

“Eu entro em sala de aula muitas vezes e pergunto quem quer fazer o vestibular, mas eles nem levantam a mão!”

Bárbara Maia, professora da rede estadual