Museu das Favelas e a exposição do Racionais Mc’s: porque a cultura periférica precisa ocupar o centro
O museu celebra 35 anos de Racionais e desloca a cultura periférica para o coração de São Paulo
Por João Gabriel e Maria Gomes
Quando o Museu das Favelas reabriu suas portas no Largo Páteo do Colégio, nº 148, no Centro Histórico de São Paulo, trouxe consigo um recado: a periferia não é margem, é centro produtor de memória, linguagem e futuro. A exposição “Racionais Mc’s: O Quinto Elemento”, que celebra 35 anos do grupo, tornou-se o grande símbolo dessa virada institucional e cultural. Em poucos meses, o museu dobrou o público mensal na nova sede, e a mostra, após ultrapassar 80 mil visitantes, foi estendida até 31 de agosto de 2025.
Mais do que uma homenagem, a exposição desenha um percurso histórico: do “asfalto rachado” para as vitrines do patrimônio, a curadoria assinada por Eliane Dias, CEO da Boogie Naipe (gravadora e produtora do grupo), mistura acervo, imagens e testemunhos em segmentos que mostram “a força das palavras e a energia dos Racionais”. Em 2024, o projeto concebido em parceria com o Atelier Marko Brajovic, rendeu o prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), consolidando o museu como plataforma de afirmação estética e política.
A aposta da instituição é direta: deslocar capital simbólico para onde sempre houve potencial criativo. Criado pelo Governo do Estado em 2022 e instalado no Palácio dos Campos Elíseos, antiga sede da elite cafeeira no início do século XX, o Museu das Favelas nasce para “ressignificar” o espaço e dar centralidade às narrativas vindas de favelas, ocupações, quilombos e comunidades ribeirinhas. A transferência para o casarão do Pátio do Colégio ampliou área, circulação e acesso, movimento refletido nos novos números de público alcançados pelo museu.
O encontro entre o acervo e a rua
A mostra “O Quinto Elemento” foi pensada como imersão: objetos, letras, prêmios, imagens e trechos audiovisuais que percorrem da São Bento aos palcos internacionais. O desenho expositivo propõe uma experiência sensorial com ênfase na palavra como ferramenta de autoestima e sobrevivência coletiva. “Não tem muito romantismo; é uma exposição muito real”, resumiu KL Jay em entrevista ao Conexão BDF (Rádio Brasil de Fato), celebrando a prorrogação da temporada.
Essa “realidade” é, há décadas, a matéria-prima do grupo. Em entrevista à Rádio USP em 2019, KL Jay afirmou: “O rap salvou uma geração de jovens pretos que estavam fadados a desaparecer, a se tornarem invisíveis ou a apodrecerem nas cadeias ou nas ruas”. Para ele, o Racionais teve papel fundamental nesse processo: “Trouxe muita autoestima, tirou muita gente do crime e do estado invisível. O Racionais tem uma grande parcela de responsabilidade pelo orgulho negro que existe hoje no país”. Essas falas ajudam a interpretar a exposição não apenas como celebração artística, mas como política pública de memória, uma ferramenta de letramento racial e social que parte da origem musical para chegar ao museu
Além de KL Jay, visitantes e fãs também percebem a exposição como um marco. Nicolas Damasceno, visitante da exposição e morador de Guaianases, relatou ao Central Periférica: “Acima de tudo isso é muito simbólico. A cultura do hip-hop tem como desejo primitivo a denúncia de algo, sermos vistos, estarmos onde nós merecemos por direito. Somos a história e merecemos respeito, a exposição é um passo para conseguirmos visibilizar narrativas antes invisíveis”.
Nicolas ainda acrescenta: “Sou eternamente grato aos Racionais por tudo que fizeram por mim, mesmo que indiretamente. Me ensinaram a viver, moldaram quem eu sou e o que eu penso do mundo e da favela como um todo. Bem como dito ‘é muito fácil fugir, não vou trair quem eu fui, quem eu sou. Eu gosto de onde eu ‘tô’ e de onde eu vim, o ensinamento da favela foi muito bom pra mim”.
Instituição periférica, gestão de dentro da periferia
Há também um importante gesto estrutural: quem pauta o conteúdo é quem vive a história. A proposta da exposição chegou ao museu por meio de Eliane Dias; segundo a equipe educativa, a mudança de sede ajudou a dar escala ao projeto, no antigo endereço não haveria espaço para “implantar a ideia”. Trata-se da infraestrutura pública se reorganizando para dar espaço a uma narrativa que, por muito tempo, foi confinada à exclusão.
No lançamento, Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay compareceram como os guardiões da própria história. A crítica cultural destacou que a mostra marcou a reabertura do Museu das Favelas em seu novo endereço e que o período da mesma dialoga com a crescente legitimação de uma obra que já possui documentário de alcance global e prepara um novo álbum. Sinais de que agora é o “centro” que passa a correr atrás do que a periferia vem dizendo há mais de 30 anos.
Do Bronx ao Páteo do Colégio: a linha que não se rompe
A cultura hip-hop nasceu para deslocar a violência para a arte e, no Brasil, consolidou-se como gramática de denúncia e autoestima coletiva. Quando um museu público abre suas salas para ouvir as “letras” como arquivos de um país, fecha-se um ciclo: a cidade que silenciou a periferia precisa, agora, aprender a escutá-la e registrar o que ela tem a dizer. O resultado está no corredor cheio, no visitante que se vê representado, no educador que leva turma para “ler” e absorver Racionais no espaço que antes consagrava o poder cafeeiro da cidade. A exposição termina, mas o movimento segue.
Apesar do encerramento da mostra, o Museu das Favelas segue ativo com outras atrações, oficinas e conteúdos que valorizam a cultura periférica. A programação completa pode ser acessada no site oficial: www.museudasfavelas.org.br.
