Muito além dos estigmas: a arte que nasce da periferia
Os bonés feitos de crochê, frutos de uma arte antes marginalizada e difundida nos presídios, ultrapassam as grades do cárcere e ganham destaque na cena cultural, representando a força e a criatividade da cultura periférica
Por Ana Rita Hernandes e Giovanna Pimenta
A população periférica vivencia não só a distância física dos centros urbanos, mas, paralelamente, vive longe do fácil acesso à cultura. Por isto, a luta dos indivíduos periféricos é para que suas produções artísticas sejam vistas como válidas e serem lidas como arte. Para uma parcela da população que sempre foi privada de criar, a arte não se limita apenas a um movimento cultural, mas também à resistência e ao pertencimento. Apesar dos obstáculos, as produções periféricas têm acessado lugares de destaque e se firmado nos espaços que ocupou.
A arte periférica ainda enfrenta um paradoxo, ao mesmo tempo que marginalizada, acaba influente o suficiente para pautar tendências para grandes marcas e redes sociais. A releitura global do estilo da favela expõe a contradição de um mercado que se apropria da estética, mas rejeita sua origem, já que quando criada e utilizada por indivíduos da periferia é tida com preconceito, porém quando passa a ser inserida no contexto de grandes marcas perde os estigmas antes associados a eles, tornam-se virais e fonte de lucratividade, sem reconhecimento a quem os criaram.
Os números revelam a dimensão dessa contradição. Pesquisa feita pelo Instituto Data Favela mostra que as favelas brasileiras movimentam cerca de R$300 bilhões por ano, sendo o setor de moda a parte central desse consumo. Ainda assim, 62% dos moradores já se sentiram excluídos por não conseguir consumir algo da moda, e metade relata ter sofrido constrangimento por não ter determinada marca. Para este recorte, consumir é parte de uma autoestima e pertencimento, uma forma de existir num mercado que lucra com sua cultura sem lhe devolver espaço.
Malha, linha e resistência
Herança passada de mão em mão, passatempo em presídios, protagonismo periférico, luta contra estereótipos e estilo chave, todos esses aspectos convergem em um só acessório. Os bonés feitos de crochê aplicam uma técnica milenar em forma de espiral, com símbolos de marcas famosas como Lacoste, Nike, Kenner e Quiksilver e ainda intercalam cores e criam desenhos. A arte, antes vista como artesanato penitenciário ou de “ladrão”, passa por um processo de ressignificação. Nesse contexto, o projeto Artesanato Chave, coletivo de artistas e artesãos independentes, tem papel fundamental nessa trajetória.
Projeto idealizado por Diego Henrique, conhecido como Arte do Magro, nasce após sua saída do sistema prisional, em busca de uma forma de se sustentar e viver da arte do crochê, processo que aprendeu durante o período de cárcere. Esse coletivo busca resgatar a verdadeira identidade do acessório, que está além dos estigmas que lhe foram atribuídos. O preconceito velado perpassa pelos bonés assim como por outros tipos de arte periférica, já que muitas vezes são produzidos por ex-detentos, esses que transformaram o tempo e a habilidade em ofício, que estão por trás de cada tendência apropriada por grandes marcas.
Apesar do estigma que ainda cerca sua origem, os bonés de crochê têm aberto caminhos que vão além da moda. Para quem os produz, especialmente, auxilia no processo de ressocialização, ao representar autonomia, renda e uma nova forma de ser visto pelo mundo. Para quem os usa, estampa uma escolha estética e política. E para o debate sobre a arte e moda periférica, apresenta-se como mais um código carregado de preconceito que passa a ser reconhecido não só como artesanato marginal, mas como arte. “Eu quero que no futuro, quando uma pessoa ver outra vestindo um boné de crochê, falar que ela está bem vestida e não que seja discriminada e julgada como ex-detenta,” afirma Rafael Estevão, um dos artesãos do projeto ao explicar como deseja que o mundo enxergue sua arte.
O coletivo Artesanato Chave em parceria com o Sesc Campo Limpo fornecerá oficinas de crochê, de 4 a 25/7, às 11h no Contêiner de Oficinas. Uma oportunidade para aprender não somente como confeccionar os bonés mas também para apoiar a articulação de indivíduos periféricos e valorizar sua arte.
