Iniciativas procuram viabilizar a prática do balé para o público da periferia

Projetos voltados para a dança clássica democratizam o acesso à arte nas comunidades

 

Por Frederico Gomes, Isadora Batista, Luiza Santos e Maria Clara Ramos

Bailarinas do projeto social Michelle Gomes [Imagem: Michelle Gomes/Acervo Pessoal]
Bailarinas do projeto social Michelle Gomes [Imagem: Michelle Gomes/Acervo Pessoal]

O balé é uma modalidade artística com origens europeias que surgiu no século XV. Desde o início, sua prática esteve associada a ambientes reservados para a elite. Atualmente, por meio de iniciativas sociais, projetos de balé na periferia buscam levar a dança clássica e seus benefícios para as comunidades. Os bailarinos desenvolvem outras qualidades relacionadas à arte, como socialização, autoconhecimento do corpo e disciplina.

Michelle Gomes, professora de um projeto que leva seu nome, acredita que a juventude periférica deve ter acesso a todas as formas de cultura. Esse contato pode romper com a hegemonia branca em um estilo de dança ainda elitizado. Na periferia, o balé é também uma alternativa para o lazer das crianças. “[A prática] tira as crianças da rua, ocupa a cabeça e o tempo delas com outras coisas, com coisas boas, com coisas que elas podem crescer”, afirma a instrutora.

Cecília Almeida, bailarina e professora com atuação em projetos sociais, ressalta ainda o sentimento de segurança que se constrói em um espaço formado quase exclusivamente por mulheres. “O balé traz um ambiente de segurança. A maioria das meninas mais novas vê um homem como uma imagem de violência, porque é o que há. Então, é um ambiente, querendo ou não, predominante feminino, onde elas vão encontrar uma professora mulher”, explica a educadora.

Cecília começou a praticar ballet em um projeto social, aos 7 anos [Imagem: Cecília Almeida/Acervo Pessoal]
Cecília começou a praticar ballet em um projeto social, aos 7 anos [Imagem: Cecília Almeida/Acervo Pessoal]

“Mas eu vejo que o papel social do balé é tão grande quanto a função de arte”

Cecília Almeida, bailarina e professora

A prática do balé em alto nível pode ser muito cara para as alunas. “O balé precisa de uma formação, ele é igual escola”, explica Cecília. O preço das aulas, junto com a vestimenta e os equipamentos necessários são despesas elevadas para iniciar e manter os estudos. Esse alto custo, na prática, exclui pessoas com menos condições financeiras de uma formação especializada no balé clássico.

Muitas alunas desses projetos veem a dança como um passatempo, poucas realmente desejam tornar-se bailarinas, o que afasta muitos professores de balé de ações sociais. Isso obriga quem deseja se aprofundar a buscar alternativas nas poucas escolas que oferecem aulas gratuitas ou bolsas.

Para proporcionar às alunas experiências que vão além da sala de aula, o projeto de Michelle realiza rifas e vaquinhas. “No último ano, consegui levar cinco das minhas alunas mais velhas para o Festival de Dança de Joinville. Mas foi uma luta de praticamente seis meses para conseguir levantar os recursos para a viagem”.

Apesar das dificuldades enfrentadas pelos bailarinos e professores, os projetos abrem portas para o primeiro contato com o mundo artístico. “A pessoa vai criar consciência corporal, vai entender que a bailarina é forte, que é persistente”, reflete Cecília.

A iniciativa desenvolvida por Michelle Gomes se localiza na Zona Norte de São Paulo e conta com 50 alunas de diferentes idades. Nas redes sociais, o projeto divulga mais informações sobre o seu funcionamento, além de apresentações realizadas pelas bailarinas.