‘Exame Inclusivo’: ENEM 2024 foi marcado por críticas de estudantes e destacou desigualdade na educação brasileira

Dificuldade da prova foi principal pauta de insatisfação levantada pelos alunos

Por Luiz Dias, Breno Marino e Andrey Furmankiewicz

Teste abordou temas sociais importantes em suas questões e redação [Imagem: Reprodução/Agência Brasil]
Teste abordou temas sociais importantes em suas questões e redação [Imagem: Reprodução/Agência Brasil]

O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) reuniu mais de 4 milhões de participantes em busca de uma vaga no ensino superior, nos dias 3 e 10 de Novembro. Apesar disso, a prova gerou debates entre estudantes e professores sobre o nível de dificuldade.

Naiale Gatria, 17 anos, foi uma das alunas que criticaram o exame: “Tinha muito texto em uma linguagem difícil. Terminei a prova com os olhos cansados de tanto ler e reler.” Tiffany dos Santos, também de 17 anos, apontou que “a maioria das questões era de interpretação”, o que, para ela, dificultou o desempenho.

As reclamações não se limitaram à leitura e interpretação. Michel Carvalho, 19 anos, fez o ENEM pela terceira vez e expressou sua frustração: “A banca não avalia o que aprendemos no ensino médio. A dificuldade não condiz com o que vimos na sala de aula. Se não fosse o cursinho pré-vestibular, eu estaria completamente perdido. Imagine quem veio direto da escola sem reforço.”

Os professores também se manifestaram sobre o tema. Paulo Roberto Jubilut, professor de biologia e educador digital, destacou que o exame pode parecer, à primeira vista, “um sistema feito para derrubar, principalmente, os estudantes de baixa renda”. Ele apontou que a desigualdade na preparação entre alunos de escolas públicas e particulares cria uma competição desleal.

Michel Carvalho, morador do Grajaú, concorda com essa visão. Desde os 15 anos, ele concilia estudos com trabalhos temporários para ajudar em casa. Essa rotina dificultou suas primeiras tentativas no ENEM. “Eu não tinha tempo para estudar. Só conseguia acompanhar o conteúdo da escola e, na véspera, assistia a lives enormes com resumos, mas não dava para aprender em um dia o que deveria ter estudado o ano todo”, relatou.

Por outro lado, alguns professores acreditam que o nível do exame não mudou em relação a edições anteriores. Paula Lima, professora de história na periferia da Zona Sul de São Paulo, argumentou que “o ENEM segue um padrão consistente, e este ano não foi muito diferente”. Com mais de 20 anos de experiência, ela afirma que a percepção de maior dificuldade se repete anualmente: “Sempre dizem que a prova está mais difícil.”

Paula reconhece o caráter excludente do exame, mas pondera que “muitos alunos que reclamam não se prepararam como deveriam, mesmo tendo tempo para isso”. Segundo a professora, as questões de humanas mantiveram o foco em interpretação de texto e temas sociais, com algumas perguntas mais complexas, “dignas de segunda fase da FUVEST”. No entanto, ela reforça que essas questões eram exceções.

Questão 20 do Caderno Azul se tornou uma das mais polêmicas da prova, após Caetano Veloso, artista utilizado na produção da questão, ter errado a mesma [Imagem: Reprodução/INEP]
Questão 20 do Caderno Azul se tornou uma das mais polêmicas da prova, após Caetano Veloso, artista utilizado na produção da questão, ter errado a mesma [Imagem: Reprodução/INEP]

Ambos os professores concordam que, na maioria dos casos, o ensino médio público não prepara adequadamente os alunos para o exame. Isso faz com que muitos estudantes dessas escolas precisem buscar aprendizado extra fora da sala de aula. Entre as alternativas mais procuradas estão os cursinhos pré-vestibulares populares, como os oferecidos pela Universidade de São Paulo ou por instituições privadas, como o Instituto Eurofarma.