Esporte para alguns, saúde para poucos

Como o acesso ao esporte influencia a expectativa de vida em São Paulo

Por Danyele Larissa Barbosa dos Santos, Leticia de Aquino, Mayara Felisardo e Leda Lôbo

Dados do Mapa da Desigualdade (2025), estudo elaborado pela Rede Nossa São Paulo, mostram as diferenças na longevidade dentro da capital paulista. Nesse cenário, bairros como Pinheiros, na Zona Oeste do município, e regiões como Cidade Tiradentes, no extremo leste paulistano, evidenciam um contraste expressivo: em média, moradores de áreas nobres chegam a viver até duas décadas a mais do que aqueles que residem em regiões periféricas da cidade.

A diferença na longevidade não é fruto do acaso. Fatores estruturais, como acesso à saúde, à mobilidade urbana e ao lazer, influenciam diretamente a qualidade de vida da população. Entre eles, a prática de atividade física aparece como um elemento importante, mas que nem todos têm as mesmas condições para acessar.

Rotinas e realidades distintas

Para muitos moradores da periferia, a rotina é atravessada por longas jornadas de trabalho, cansaço extremo, deslocamentos extensos em transportes públicos, além de múltiplas responsabilidades, aspectos que podem colocar a saúde em segundo plano. Em entrevista,  Yara Maria de Carvalho, professora da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, destaca os empecilhos associados a essas condições.

“Quem tem menos acesso são aqueles que precisam trabalhar mais, precisam se dedicar mais a algumas condições que nem sempre são as melhores condições, e aqui eu estou falando das populações vulneráveis.” 

Além da falta de tempo, fatores, como renda, rotina e, principalmente, o acesso a espaços adequados, influenciam diretamente a forma como a população se relaciona com o exercício e, até mesmo, com a própria saúde.

Segundo Yara, a falta de uma oferta diversa de práticas corporais também dificulta a adesão dos indivíduos aos exercícios que fazem uso do corpo: “Porque, muitas vezes, aquilo que é interessante para você, não é para mim, mas é só aquilo que é ofertado, então a gente acaba não desenvolvendo outras possibilidades e modos de experimentar o corpo, a vida e as relações com os outros”.

Com as diversas dificuldades impostas pelo ambiente em que se vive e pela condição de tempo, vida e trabalho de cada um, diversas pessoas enfrentam obstáculos, ou até mesmo impedimentos, em relação à prática de atividades físicas.

Bruno Henrique, morador de uma vila na Zona Leste, relata sua vivência com a falta de fomento e de sinalização nos ambientes que seriam propícios à prática de esportes. “Não há algo que incentive as pessoas a praticarem exercícios, não tem uma placa que sinalize as praças, só descobri por pesquisas na internet. Muitas pessoas nem sabem das possibilidades ao seu redor”, conta.

Assim, pessoas com maior poder aquisitivo tendem a ter maior acesso a benefícios como melhor mobilidade urbana e maior disponibilidade de tempo para o cuidado com a saúde. Em contrapartida, parcelas da população com menor renda não são asseguradas desses direitos, evidenciando, não se tratar apenas de uma escolha pessoal, mas sim, de muitos fatores que os impedem de se exercitarem com frequência, o que impacta diretamente na sua saúde física, mental e emocional.

Como melhorar o acesso à prática esportiva para todos

Para a professora Yara, o Estado e a população devem atuar em conjunto para ocupar e criar democraticamente esses ambientes, de maneira a pensar coletivamente nas práticas e a acolher o maior número de indivíduos e suas necessidades. Tudo isso, favorecendo a preservação da cultura acerca das práticas corporais e fomentando diferentes modalidades.