Esporte na quebrada: a promessa de ascensão que nem sempre se cumpre

Como a periferia enxerga o esporte como caminho de mobilidade social, e por que esse caminho ainda é estreito

Por Gabrielle Pinter e Júlia Berlim

SÃO PAULO, SP, BRASIL, 18-11-2011: Meninos carentes jogam futebol na Cidade Tiradentes, periferia de São Paulo. Foto: Carlos Barreta/ Reprodução/ Wikimedia Commons

Há décadas, o esporte é apresentado como uma das poucas portas de saída da pobreza para jovens de favelas e periferias brasileiras. Um estudo do professor José Antonio Vianna realizado em uma comunidade do Rio de Janeiro mostrou que mais da metade dos moradores entrevistados via a prática esportiva orientada como a melhor alternativa de lazer disponível, em um cenário com poucos outros equipamentos públicos de qualidade. Para essa população, o esporte funciona como uma alternativa de ascensão social, mas também como resposta a um vazio de políticas públicas mais amplas.

O esporte como aposta

Em comunidades populares, é comum que pais matriculem os filhos em projetos esportivos buscando disciplina e segurança, mais do que medalhas. Pesquisas sobre inclusão social pelo esporte apontam que esses projetos costumam nascer de financiamento público ou privado, voltados justamente a jovens de classes populares em situação de vulnerabilidade. O esporte aparece, nesse contexto, como ferramenta de socialização capaz de substituir a lógica da violência por uma competição com regras claras.

A exceção que vira regra no discurso 

A trajetória de Rafaela Silva ilustra essa promessa de ascensão. Criada na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, ela começou no judô aos 8 anos no Instituto Reação, projeto social fundado pelo judoca olímpico Flávio Canto, depois de uma tentativa frustrada de matrícula no futebol, modalidade que não aceitava meninas na escolinha do bairro. Em 2016, tornou-se a primeira judoca brasileira a conquistar uma medalha de ouro olímpica, em casa, a poucos minutos da comunidade onde cresceu. Ao longo do caminho, enfrentou racismo, depressão e dificuldades financeiras mesmo depois de profissionalizada, sustentando a própria família com os recursos do esporte.

Quando o sonho não chega à maioria

Essas histórias, porém, são exceções dentro de um universo muito maior de jovens que praticam esporte em projetos sociais. A maior parte deles não chega ao alto rendimento, e muitos abandonam a prática antes da adolescência terminar, por falta de estrutura, de incentivo ou simplesmente de tempo livre em rotinas marcadas pelo trabalho precoce. Professores que atuam em projetos esportivos dentro de favelas relatam, em pesquisas acadêmicas, dificuldade em enxergar potencial de profissionalização nos próprios alunos, o que reforça um ciclo de baixa expectativa. A ascensão social pelo esporte existe, mas depende de uma cadeia de apoios que nem sempre está disponível para quem mais precisa dela.

O que o Bolsa Atleta cobre – e o que deixa de fora 

Criado em 2005, o Programa Bolsa Atleta é o principal programa do governo federal de apoio financeiro direto a esportistas, hoje dividido em seis categorias, da base ao alto rendimento, incluindo modalidades olímpicas, paralímpicas e surdolímpicas. Em 2026, o valor mensal varia de R$410, na categoria de base, a R$16.629, na categoria Pódio, destinada a atletas com chance real de medalha em grandes competições. O programa bateu recorde de beneficiários nesta edição, alcançando mais de 11 mil atletas contemplados, segundo o Ministério do Esporte.  Além do auxílio financeiro em si, a Bolsa Atleta vem acompanhada do apoio de empresas patrocinadoras, garantindo acompanhamento de profissionais – como nutricionista e fisioterapeuta – e equipamentos necessários para o melhor desempenho do atleta. Apesar do crescimento, o acesso depende de resultados comprovados em competições já reconhecidas oficialmente, o que deixa de fora boa parte dos atletas em formação, justamente o estágio mais frágil e mais caro da carreira esportiva.

Giovanna Pimenta, atleta de vôlei – atuante como “levantadora” – pela Associação Desportiva de Santo André, conversou com a Central Periférica sobre essa questão. A atleta é natural de Uberaba/MG, mas se mudou para São Bernardo do Campo/SP justamente para seguir a carreira esportiva e cursar a faculdade de Jornalismo na USP. 

Mesmo conhecendo todas as etapas do processo, Giovanna não tem acesso à Bolsa Atleta e explica o motivo: “Não tenho acesso à Bolsa Atleta hoje porque depende de um critério de escolha que eles (Ministério do Esporte) fazem de acordo com os títulos que você tem. Então, além do atleta ser federado por algum estado, também tem que ter algum título nacional ou internacional. É a sua federação que tem que te indicar para receber a Bolsa. Se a sua federação não te indicar, você não consegue nem entrar no sistema do Gov.com”

A atleta reitera que não acha o processo justo: “É uma política do governo que não contempla todo mundo. Tem várias pessoas que precisam ser contempladas pela Bolsa, e não são”. Giovanna acrescenta que no meio do esporte competitivo, é difícil conseguir uma colocação de forma rápida: “Falando de forma pessoal, a federação paulista é muito concorrida. Nas categorias que eu jogo hoje, são sempre os mesmos times que ganham. É muito nichado, é sempre o mesmo top 3: os times de elite. É claro que é importante reconhecer o mérito das pessoas que lutaram e estão sendo recompensadas, mas seria muito bom se o governo também desse aval àqueles que estão na busca”.

Giovanna pontua que, caso fosse contemplada com a Bolsa Atleta correspondente à sua categoria atual, mesmo sendo complicado se sustentar totalmente com o valor fornecido, seria um benefício muito bem-vindo: “Me manter totalmente não tenho certeza, provavelmente não. Aqui em São Paulo as coisas complicam um pouco. Mas faz diferença, sabe? Principalmente na parte mental. É tranquilizante e gratificante você conseguir se manter fazendo o que você ama, não ter que deixar de treinar porque tem outra coisa que você precisa fazer para garantir a sua sobrevivência. A gente que está treinando quer se dedicar ao máximo, quer estar ali dentro da quadra. Mas aí a gente tem que entender que o mundo não é só o esporte: é também garantir uma comida, uma conta paga.”

As falas da atleta reforçam um ponto recorrente nas pesquisas sobre auxílios no esporte: a estrutura de apoio público é desigual, e isso pesa mais sobre quem já faz parte de uma condição social mais frágil. Sem patrocínio, sem bolsa e sem rede de proteção financeira, muitos talentos desistem antes mesmo de chegar ao nível em que o sistema oficial passa a reconhecê-los.

O esporte continua sendo, para milhares de famílias, uma aposta concreta de um futuro melhor. Entre a quadra e o pódio olímpico, existe uma distância feita de investimento público, de políticas como o Bolsa Atleta e de oportunidades que, na maior parte das vezes, ainda não chegam à todos.