Entre o trajeto e a sala de aula: como a distância afeta a vida dos universitários
Horas gastas em deslocamentos diários reduzem o tempo para estudo, lazer e convivência social, além de impactarem a saúde física e mental
Por Marte Politano e Melissa Siqueira
Embora o acesso ao ensino superior tenha se ampliado nos últimos anos, especialmente por meio de políticas de inclusão, a permanência na universidade ainda é marcada por desigualdades. Para estudantes que vivem em periferias ou em cidades da região metropolitana, a distância entre casa e campus representa um desafio diário que vai além do tempo gasto no transporte.
Segundo dados mais recentes do Censo Demográfico do IBGE, de 2022, o deslocamento intermunicipal era realidade para mais de um quarto dos estudantes nos cursos de graduação (27,3%). Especialmente nesses casos, problemas relacionados ao tempo gasto em percurso afetam não apenas o desempenho acadêmico, mas também a qualidade de vida dos estudantes.
O trajeto até a faculdade
A rotina de quem mora longe do campus costuma começar horas antes do período de aulas. Para Esthefany Lustosa, estudante de Marketing da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH-USP), começa cerca de quatro horas antes. Moradora de Jandira, na zona oeste de São Paulo, Esthefany tem que sair horas mais cedo para evitar o horário de pico: “Eu tenho que pegar três trens diferentes e costumo sair mais cedo de casa para não pegar muito lotado, porque depois das cinco horas fica impossível de entrar na última linha”, relata.
O peso na rotina se dá não só por conta do tempo gasto em deslocamento, mas também pela instabilidade e pelo medo que acompanham os estudantes. Lustosa ressalta que não se sente segura e sempre tenta combinar de voltar junto com outros colegas, mas nem sempre é possível – o que impacta no seu bem-estar e na sua participação em eventos da faculdade. Tal dificuldade também está presente na rotina de Pedro Henrique de Santana, estudante ingresso em 2025 no curso de Jornalismo da USP: “É extremamente desgastante ter que sair temendo chegar atrasado no estágio, voltar pra casa com medo de perder o último ônibus e conviver com o medo constante de ser assaltado a depender do horário que desço da estação”.
Impactos na saúde mental
Para além do cansaço e do medo, a dependência do transporte público rouba dos alunos também a oportunidade de vivenciar as atividades extracurriculares que a universidade pública oferece. Mais ainda, estudos e relatos revelam que os fatores ambientais do transporte público causam níveis mais elevados de fadiga e estresse.
Nesse estudo, da Universidade de Istambul, chegou-se à conclusão de que “a qualidade das experiências de transporte público, mais do que apenas a duração do trajeto, desempenha um papel crucial no bem-estar físico e psicológico, bem como no equilíbrio ocupacional entre adultos jovens.”
Para Lustosa, o excesso de estímulos que o transporte público causa afeta diretamente seu desempenho e foco. A necessidade de otimizar o tempo, ou seja, ler os livros ou fazer trabalhos durante o percurso, a desmotivam e esgotam sua vontade de participar de atividades acadêmicas secundárias. “Essa rotina afeta tanto o físico quanto o mental, porque é uma caminhada longa até lá. Você realmente se cansa, já teve tanto estímulo nesse caminho, que você chega lá com a cabeça cheia. Já se estressou e, às vezes, não consegue absorver tudo da aula”, conta.
Pedro mora no extremo sul de São Paulo, na região do Grajaú, e conta que sente que existe uma diferença clara entre estudantes que moram perto do campus: “Quem mora perto pode usar o tempo livre para estudar nas bibliotecas, participar de grupos de pesquisa, feiras ou fazer esportes. Tudo isso são coisas que sinto falta… A oportunidade existe, mas eu simplesmente não tenho tempo para vivenciar essas coisas.”
A realidade vivida por Esthefany e Pedro espelha uma que é vivida por inúmeros jovens que se sentem desfavorecidos e sofrem com a falta de políticas públicas de permanência de qualidade, como moradia estudantil.
“Sinto que poderia estar me dedicando muito mais academicamente e participando de mais atividades extracurriculares se não gastasse esse tempo com o trajeto”
Pedro Henrique de Santana
