Entre a Favela e a Sala de Concerto: O Impacto do Ensino de Música Clássica nas Periferias

Projetos democratizam cultura e levam novas perspectivas para jovens periféricos

Por Bianca Candido, Nina Bozic, Renata Paes

O consumo de música clássica no Brasil enfrenta dificuldades de acesso, apesar do país ser líder em engajamento no gênero. É o que demonstra a pesquisa Classical Pulse 2026, produzida pela empresa Fever. Segundo o estudo, 42% dos brasileiros entrevistados afirmam não consumirem o gênero por falta de acesso à sua produção, ainda que tenham interesse. 

Nas periferias, o afastamento se intensifica ao ultrapassar a dimensão espacial e alcançar a cultural, dado o caráter ainda elitizado da arte. Essa realidade, contudo, não é irreversível: diversas iniciativas voltadas ao ensino da música clássica a jovens periféricos atuam para modificá-la. 

O projeto Orquestra da Grota, por exemplo, oferece formação musical e auxílio psicopedagógico a moradores da comunidade da Grota, em Niterói. Márcio Selles, professor da instituição, afirma que o ensino da música clássica contribui para sua democratização e impacta a trajetória dos estudantes. Para ele, a participação desses jovens atua na formação de identidades sociais ao ampliar a compreensão de seus papéis como cidadãos. 

Em São Paulo, a Orquestra Sinfônica de Heliópolis, vinculada ao Instituto Baccarelli, realiza um trabalho similar, oferecendo aulas coletivas de teoria e práticas musicais. A atividade em conjunto garante a socialização e o acolhimento desses jovens. Como a iniciativa de Niterói, a ação é reconhecida mundialmente e apresenta impacto significativo na expansão da cultura erudita periférica. O projeto também foi responsável pela primeira sala de concertos em favela do mundo, em 2025. Felipe Moreira de Souza, aluno e professor da orquestra, afirma que esse marco é essencial para a ampliação do acesso a essa arte. 

De acordo com Viviane Queiroz, violinista da orquestra, “O Instituto traz para Heliópolis e região a vontade e força de sonhar e realizar”. Nesse sentido, a promoção de programas culturais gratuitos cria novas perspectivas de futuro aos jovens e suas comunidades, ampliando seus horizontes além da realidade imediata. Além disso, tais práticas proporcionam acesso a novos espaços, troca de ideias e experiências.