Empreendedorismo periférico: necessidade ou escolha?
Entre a busca por autonomia e os obstáculos do trabalho formal, moradores das periferias recorrem ao negócio próprio como alternativa de sobrevivência e afirmação
Por Alicia Dias, Gabrielle Pinter e Júlia Berlim
Pesquisas do Data Favela indicam que 38% das pessoas que residem nas periferias brasileiras almejam ter o próprio negócio. O desejo por esse modelo de empreendimento vem crescendo e reflete o desemprego e as condições precárias de trabalho que atingem grande parte dos moradores dessas localidades.
Na comunidade Jardim São Remo, na zona oeste de São Paulo, Vitoria Lauro, profissional de beleza e estética, e Gustavo Dantas, barbeiro, enxergaram o empreendedorismo dentro de suas próprias comunidades como uma possibilidade de melhoria de vida.
“A empresa não entende a maternidade, então foi ele (meu filho) que me motivou a buscar um trabalho que eu pudesse conciliar e que me ajudasse”, diz Vitoria ao ser questionada sobre qual foi o pontapé inicial para se tornar empreendedora.
Enquanto isso, Gustavo relata que a influência de sua criação o inspirou a ter o próprio negócio. Atualmente, devido à demanda de atendimentos, ele conta com a colaboração de Lucas dos Reis.
Leonardo Fontes, professor do Departamento de Sociologia da Unicamp e pesquisador do Núcleo de Etnografias Urbanas do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), explica a diferença entre o empreendedorismo periférico e o empreendedorismo tradicional:
“O empreendedorismo periférico teria essa dimensão associada a você fazer atividades, vender produtos ou serviços que, de alguma forma, digam algo sobre a sua identidade de ser da periferia, sobre essa dimensão cultural e social de ter vivido, crescido e morar nas periferias da cidade.”
De acordo com o pesquisador, essa forma de empreender vai além da noção neoliberal de maximização de resultados e investimentos. Ela também envolve associar cultura, história e relações sociais à atividade empreendedora.
Além disso, o empreendedorismo popular e periférico funciona como uma ferramenta de libertação de relações sociais opressoras, tanto no mercado de trabalho quanto nas relações cotidianas desses indivíduos.
“Pessoas estão buscando algumas libertações com relação a opressões específicas que elas encontram, seja na relação com o patrão e todas essas exigências, nas relações hierárquicas dentro das empresas, em muitos casos de assédio sexual contra mulheres, ou em opressões raciais associadas a essa situação no mercado de trabalho. Mas também em outras formas de opressão que você encontra em relações para além do mercado de trabalho”, afirma.
Apesar da possibilidade de se afastar de algumas opressões presentes no trabalho tradicional, surgem novos desafios, sobretudo relacionados à ausência dos direitos trabalhistas garantidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), como férias remuneradas, 13º salário e licença-maternidade.
Segundo Leonardo, o principal desafio é conciliar a autonomia e a flexibilidade desse modelo de trabalho com mecanismos de proteção social. Para isso, seria necessário pensar em políticas públicas construídas a partir de um diálogo interdisciplinar, capazes de contemplar os aspectos positivos de ambas as realidades.
