Empreendedorismo feminino: a cultura afro na periferia
O uso de recursos de matriz africana na conquista da liberdade financeira de mulheres das comunidades
Laura Cristofoleti, Hellen Rodrigues, Luiza Martins Torre, Kaylaine Farias
A cultura afrodescente sempre esteve presente na história das periferias brasileiras. Práticas como culinária, estética e artesanato são símbolos de identidade que tradicionalmente são atrelados ao protagonismo feminino. Tais formas de expressão vêm sendo usadas por mulheres periféricas como forma de empreender, trazendo novos significados para costumes que hoje são vistos como uma maneira de alcançar a autonomia feminina.
Historicamente, atividades culturais como forma de trabalho sempre estiveram presentes na tradição das brasileiras. As quitandeiras, como eram conhecidas, foram mulheres escravizadas ou libertas que buscavam sua independência na venda de alimentos e produtos. Tal uso era uma ferramenta de luta contra a desigualdade social de seu tempo e espaço, luta essa que também está presente, atualmente, nas comunidades, as quais enfrentam dificuldades financeiras atreladas ao preconceito.
Empreender e cuidar
Para além da esfera econômica, o empreendedorismo periférico traz voz para culturas que antes eram marginalizadas. Denise Wenceslau, cabeleireira especializada em cabelos afros, afirma que seu trabalho com adolescentes em processo de transição capilar apresenta grande impacto na percepção dessas quanto a sua identidade.
“As adolescentes sem autoestima com o cabelo cacheado… Com a maioria delas eu tive um papel fundamental para elas entenderem que são lindas e que a curvatura delas, se é crespa, cacheada ou lisa, não vai interferir na beleza delas”.
Ao enfrentar uma visão negativa propagada sobre a beleza de mulheres negras, Denise e outras empreendedoras do ramo estético fortalecem a cultura periférica através da autoconfiança de suas participantes.
“Então acho que me sinto cuidando de mulheres por dentro a partir do momento que eu cuido delas por fora.”
Desafios e preconceitos
Ao ser questionada sobre qual seria a maior dificuldade enfrentada por mulheres ao tornarem-se empreendedoras, a cabeleireira responde: “Além de uma mulher empreendedora, sou mãe e esposa. Então, conciliar tudo isso é muito complicado, porque você tem que equilibrar tudo e tem muita cobrança, se você foca muito na empresa, tem os filhos, e então você sente como se estivesse largando a família”. Pesquisa do Sebrae feita em 2019 mostrou que as mulheres tendem a trabalhar menos nos empregos formais pois, em sua maioria, são obrigadas a conciliar dupla jornada: o trabalho remunerado e os cuidados domésticos.
Outro fator que atua como obstáculo na consolidação dos empreendimentos femininos é o local no qual estes negócios se situam. Ainda em conversa com Denise, a mesma declara dificuldades em ter seu trabalho valorizado por consequência da localidade do seu estabelecimento.
“Tem uma leve desqualificação em questão de bairro. Como eu trabalho em bairro as pessoas não querem pagar caro porque consideram só um ‘salãozinho’, não olham a qualidade do trabalho. Algumas pessoas olham pelo bairro”.
Assim como o preconceito devido ao local, a cor da pele também é vista como um diferencial ao considerar o empreendedorismo feminino. Suelen Karini, mestra em antropologia, em sua pesquisa apresentada no Seminario Internacional da Universidade Federal de Santa Catarina em 2021 apontou que dentre os principais ramos de atuação de mulheres brancas está o empreendimento no vestuário (roupas e calçados), enquanto as mulheres negras se “destacam” no empreendimento doméstico.
Conceitos enraizados como este reforçam estereótipos sobre mulheres pretas e/ou periféricas, dificultando a desvinculação das mesmas com estes ideais e prejudicando sua conquista de emancipação.
Apesar de todos os desafios citados, é a resistência das mulheres marginalizadas ao passar dos anos que permanece como memória principal da cultura periférica, representada pela força feminina como a de Denise, que supera suas dificuldades e escolhe não desistir, mas persistir: “Quando meu braço não aguentar, tenho minha voz para ensinar minhas técnicas”.
