El Niño: entenda os impactos do fenômeno na saúde pública de São Paulo
Chuvas intensificadas aumentam o risco de enchentes e favorecem a disseminação de doenças transmitidas pela água contaminada
Por Letícia de Aquino, Mayara Felisardo, Manuela Neves e Larissa Santos
Previsões climáticas realizadas pela Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) indicam a probabilidade de 90% para que o El Niño se desenvolva no segundo semestre de 2026. Apesar de ser um fenômeno natural, as mudanças climáticas irão intensificar seus efeitos, o que pode colocar a vida de muitos em risco.
Entendendo o El Niño
Os impactos do El Niño costumam ser lembrados pelas imagens de ruas alagadas, casas inundadas e famílias desalojadas. O fenômeno climático, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, altera os padrões de circulação da atmosfera e influencia o regime de chuvas em diversas partes do mundo.
No Brasil, os impactos variam conforme a região, podendo provocar ondas de calor e alterações nos padrões de precipitação. O Sul do país, em especial, costuma ser a região mais afetada pelo aumento das chuvas, o que favorece a ocorrência de grandes inundações. Nas cidades, as enchentes também tem causas estruturais: a impermeabilização do solo, a falta de percolação da água, e a ocupação de áreas de risco, fazem com que a água escoe rapidamente e sobrecarregue ruas e rios, ampliando o risco de enchentes, alagamentos e deslizamentos de terra.
Embora os prejuízos materiais sejam os mais visíveis, as consequências vão muito além da infraestrutura comprometida. Quando a água invade ruas e residências, ela também carrega esgoto, lixo e diversos microrganismos capazes de provocar doenças. Segundo a médica infectologista Amanda Nazareth Lara, assistente do Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) e do Ambulatório dos Viajantes do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP), as enfermidades mais frequentes após enchentes são aquelas transmitidas pela água contaminada. Entre elas estão leptospirose, hepatites A e E, febre tifóide, gastroenterites e verminoses, como giardíase, amebíase e ascaridíase.
Além das doenças de transmissão hídrica, surgem outros riscos em cenários de desastre. Ferimentos provocados por objetos escondidos na lama aumentam a possibilidade de infecção por tétano, especialmente entre pessoas com a vacinação incompleta. Há ainda um crescimento no número de acidentes com animais peçonhentos, que buscam abrigo em locais secos durante os alagamentos, e de doenças respiratórias, como influenza, covid-19 e infecções pelo vírus sincicial respiratório (VSR), favorecidas pela permanência de famílias em abrigos coletivos.
A desigualdade por trás dos alagamentos
É verdade que qualquer pessoa pode adoecer após uma enchente, porém o risco é maior para quem vive em áreas sem coleta e tratamento de esgoto, com drenagem insuficiente e ocupação desordenada. Nessas regiões, a água da chuva se mistura com esgoto e resíduos, aumentando a exposição da população a agentes infecciosos.
A enchente é um fenômeno natural, mas o adoecimento em massa é potencializado pelas desigualdades sociais. Após o alagamento, muitas dessas comunidades enfrentam dificuldades para acessar serviços de saúde, seja pela distância, pela sobrecarga das unidades ou pela própria precarização do sistema. Como consequência, o diagnóstico e o tratamento podem demorar, favorecendo o agravamento de enfermidades que poderiam ser controladas com atendimento precoce.
Os primeiros sinais de alerta
De acordo com Amanda Nazareth, os primeiros cuidados após o contato com a água da enchente são lavar imediatamente as partes do corpo expostas com água limpa e sabão, trocar as roupas contaminadas e manter o calendário vacinal em dia, principalmente contra tétano, hepatite A e covid-19. Pessoas que sofreram cortes ou perfurações também devem procurar avaliação médica para verificar a necessidade de profilaxia contra o tétano, enquanto socorristas, voluntários e indivíduos expostos por longos períodos podem precisar de avaliação para quimioprofilaxia da leptospirose.
A médica alerta que os sintomas nem sempre aparecem imediatamente. Enquanto a leptospirose costuma se manifestar entre sete e 14 dias após a exposição, com febre alta, dores musculares e mal-estar, o tétano pode surgir entre cinco e quinze dias depois, inicialmente com dificuldade para abrir a boca e rigidez muscular. Já a hepatite A pode levar de duas a seis semanas para apresentar sintomas, como náuseas, vômitos, dor abdominal e febre. “Qualquer pessoa que apresente febre, sintomas gastrointestinais ou respiratórios após uma enchente deve procurar atendimento médico”, orienta a infectologista.
