Efeitos da violência na saúde mental periférica

O aumento da violência urbana nas regiões periféricas contribui com o crescimento dos transtornos mentais entre os moradores

Por Beatriz Sandoval e Isabela Slussarek

Junto com a pandemia da COVID-19 em 2020, a discussão sobre o diagnóstico e tratamento dos transtornos mentais entre os brasileiros ganhou mais força. Estudos realizados pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) afirmam que houve um aumento de 90% de casos de depressão e 80% de ansiedade entre os brasileiros, após a pandemia.

Marcelo Batista Nery é pesquisador, Coordenador de Transferência de Tecnologia e Head (chefe) do Centro Colaborador da OPAS/OMS no Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP. Ele alega que o aumento desses transtornos entre a população se dá pela maior visibilidade e capacidade de diagnóstico, crescimento dos estudos sobre o assunto e pelo aumento da conscientização da necessidade de tratamento.

Para Marcelo, outros fatores ligados aos aspectos sociais e econômicos contribuem com o constante crescimento desses casos. A violência urbana, as pressões econômicas e a desigualdade no acesso aos serviços públicos impactam a saúde mental dessa parcela da população vulnerabilizada socialmente. 

A saúde mental é resultado da interação entre os fatores individuais e as condições sociais diárias. Os moradores de periferias sofrem com constantes casos de violência urbana, em razão da exclusão socioeconômica e da falta de segurança na região. Violência entre os moradores, crimes organizados e a violência policial são alguns dos casos que causam preocupação e podem desencadear em transtornos mentais.

Como a violência urbana impacta

Pesquisas do Brazilian High-Risk Cohort Study (BHRC) mostram que experiências de ameaça — como violência, bullying e abuso — estão fortemente associadas ao surgimento de sintomas psiquiátricos, enquanto privações materiais impactam diretamente as funções cognitivas.

Nas periferias, a população está mais exposta a esses riscos, acumulando múltiplos fatores de vulnerabilidade: pobreza, estigma social, acesso restrito a serviços básicos e maior prevalência de adversidades desde a infância. Essa combinação aumenta de forma significativa a incidência de problemas de saúde mental.

Entre os grupos mais afetados estão crianças e adolescentes. Segundo o BHRC, uma em cada cinco crianças brasileiras apresenta algum transtorno mental, e a exposição precoce à violência amplia consideravelmente esse risco. Há também diferenças de gênero: meninas tendem a desenvolver sintomas internalizantes, como ansiedade e depressão, enquanto meninos expostos à violência manifestam mais sintomas externalizantes, como agressividade e problemas de conduta. Esse impacto diferenciado reforça a importância de políticas públicas específicas e sensíveis às particularidades de cada grupo.

Quanto mais marginalizadas, essas populações ficam mais distantes de um acesso digno a serviços essenciais, como saúde, educação, lazer e segurança,. Essa distância não é apenas geográfica, mas também simbólica e estrutural, refletindo desigualdades históricas que se perpetuam no cotidiano.

Além de todos os recortes socioeconômicos, a realidade violenta presente nas periferias afeta diretamente no bem-estar psíquico da população. Presenciar cenas de brigas, tiroteios e mortes é uma realidade dura, mas também cotidiana. Esse convívio constante com a violência naturaliza situações de risco e gera impactos emocionais profundos, como medo, ansiedade, insônia e sensação de impotência. A exposição repetida a esses episódios pode desencadear transtornos de longo prazo, ainda mais se não digeridos corretamente.

Acolhimento social e o papel governamental

Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) do Sistema Único de Saúde (SUS) oferecem serviços de saúde abertos à comunidade, em busca de atender e disponibilizar auxílio para as pessoas que sofrem com a saúde mental. Entre 2013 e 2023, as unidades dos CAPs pelo Brasil cresceram em cerca de 42,7%. Apesar desse aumento, os médicos psiquiatras dessas instituições sofrem com a escassez de recursos humanos e estruturais. 

O acolhimento deve começar pelo reconhecimento do sofrimento e pela escuta ativa de maneira qualificada, sem julgamento, como afirma Pedro Mario Pan, psiquiatra, professor da Unifesp e pesquisador do Instituto Ame Sua Mente. Tal instituto desenvolve projetos sociais pautados em pesquisas científicas, com foco na promoção da saúde mental, redução do estigma, prevenção e manejo de transtornos.

A experiência brasileira mostra que a atenção básica, via CAPS e equipes de saúde da família, é essencial. Porém, a  BHRC revelou que apenas 20% das crianças com transtornos mentais receberam algum tratamento, por exemplo indicando que a barreira inicial ainda é o acesso e o estigma.

Os centros especializados não são capazes de atender o grande número de moradores que necessitam de auxílio, devido a falta de profissionais e pela queda da qualidade do tratamento. A violência urbana também impacta os médicos disponíveis na região, o que prejudica a qualidade dos atendimentos.

“Equipes de saúde mental sofrem ameaças, intimidações e até agressões, o que compromete sua saúde emocional e dificulta a manutenção do atendimento”

— Marcelo Batista

A segregação social das grandes cidades contribui com o aumento da população periférica e com a desigualdade dos acessos aos serviços públicos disponibilizados pelo governo. Apesar das discussões e maior visibilidade dada aos transtornos mentais, a população periférica não possui acesso às informações necessárias sobre o assunto e não recebem devido auxílio para o tratamento.

A falta de políticas públicas nas periferias voltadas aos impactados pela violência urbana desencadeia no aumento dos transtornos mentais. Patricia Marcelino, gestora de projetos do Instituto Cactus, uma entidade filantrópica e de direitos humanos que promove debates sobre o cuidado da saúde mental, explica que é dever do governo ofertar serviços, e criar e fortalecer políticas públicas de longo prazo. 

Para Patrícia, “os serviços devem focar em ações de prevenção e de promoção da saúde mental, com o objetivo de gerar impactos estruturais”. Os debates sobre a prevenção e tratamento contribuem com a redução dos estigmas e com a compreensão de que a desigualdade é capaz de intensificar o adoecimento mental.