Do campo para a quebrada: a influência dos jogadores na construção de comportamentos e valores da juventude periférica 

Fala misógina de Neymar após jogo do Santos contra o Remo, ocorrido em 02/04, pode reforçar estereótipos e influenciar comportamentos do público jovem

Por Estela Bughay, Loren Tangi e Manuela Neves

Ao apresentar suas críticas ao árbitro Sávio Pereira Sampaio após a vitória do Santos em cima do Remo, no dia 2 de abril, o jogador Neymar declarou em entrevista ao Sportv que “ele [árbitro] acordou de ‘chico’ e veio assim para o jogo. Não podia nem falar com ele que ele te ignorava, virava as costas”.

A expressão popular, historicamente utilizada para se referir à menstruação, relaciona o período menstrual a algo desagradável e sujo, reforçando uma associação entre o feminino e atitudes negativas e impróprias. 

A declaração sexista e depreciativa teve repercussão internacional, o que mostra a relevância das discussões acerca dessa temática na atualidade.  

Quando o craque sai do gramado: 

Após o episódio envolvendo Neymar, o debate sobre o comportamento de jogadores ganhou força nas redes sociais. Internautas resgataram outros casos recentes, como o do zagueiro Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, que, ao comentar a arbitragem de uma partida no Campeonato Paulista, afirmou: “A Federação tem que olhar para jogos desse tamanho e não colocar mulher [para ser árbitra]”.  

Situações como essas evidenciam um movimento mais amplo no esporte. Hoje, atletas ultrapassam os limites do campo: são influenciadores digitais, marcas pessoais e figuras públicas com um grande alcance no país, especialmente de jovens da periferia, onde muitos veem o esporte como a principal via para a mudança da sua realidade.

Com a repercussão das falas dos jogadores, torna-se importante ressaltar que esse tipo de posicionamento não é exclusivo da modalidade, e que o comportamento dos jogadores é reflexo de uma sociedade moldada pelos mais diversos tipos de preconceito. O problema central está na amplificação desses discursos — muitas vezes carentes de responsabilidade social —, que acabam reforçando estruturas negativas já presentes na sociedade.  

O impacto é ainda mais sensível entre crianças e adolescentes, especialmente em contextos de vulnerabilidade social, onde referências externas ganham maior peso. Em entrevista ao Central Periférica, o psicólogo Mauricio Andreatti destaca que a influência das celebridades varia de acordo com o ambiente familiar e o desenvolvimento crítico: “Se a pessoa possui uma constituição do pensar estruturada, não tem tanta influência. O ambiente onde essa criança passa a sua infância faz diferença”.  

Ele também aponta a dificuldade desses jovens em filtrar conteúdos e comportamentos: “Elas [as crianças em vulnerabilidade] estão sendo o tempo todo bombardeadas com informações não para fazer você pensar, mas para fazer você sobreviver”. Nesse cenário, a tendência é a reprodução de atitudes observadas em figuras de referência, o que pode perpetuar, de forma inconsciente, práticas e discursos ligados ao machismo, ao racismo e a outras formas de discriminação.   

Ídolo muito além dos títulos 

A influência dos ídolos na construção de valores das crianças com bases desestruturadas aumenta a importância de figuras dentro do esporte que estejam engajadas politicamente e que tragam debates relevantes para fora do campo, como no caso do brasileiro Vini Jr., craque do Real Madrid.

Vini se tornou uma voz importante na luta antirracista ao denunciar as violências sofridas durante os jogos na Europa e, devido a sua influência, fez com que a causa atingisse dimensões muito maiores, contribuindo para a condenação de discursos e atitudes racistas enraizados na sociedade. Dessa maneira, Vini Jr. transforma-se num incentivo importante para a juventude periférica participar, também, do combate ao racismo e a outros discursos opressivos. 

Presente na maioria dos lares brasileiros, o futebol, longe de ser um espaço plenamente democrático e inclusivo, desempenha um papel fundamental na construção dos valores de crianças e adolescentes das periferias de todo o país. Casos como o de Neymar evidenciam o peso que têm as colocações de quem está nesse espaço de referência, sobretudo para jovens das periferias, que muitas vezes encontram nesses ídolos um espelho das suas ações.

Isso não torna, entretanto, todos igualmente influenciáveis: a depender dos contextos familiares e sociais nos quais cada jovem está inserido, a reação a uma mesma informação muda. Ao mesmo tempo, exemplos como o de Vinícius Júnior mostram que esse alcance também pode ser direcionado para promover mudanças positivas, o que reafirma o compromisso dos jogadores com as transformações sociais.