Diabetes cresce, tratamento segue elitizado

Dados apontam para o aumento de casos de diabetes, mas o tratamento se mantém restrito à elite, especialmente com as canetas emagrecedoras

Por Loren Tangi, Mayara Felisardo, Estela Bughay e Leda Lôbo

A desigualdade social afeta diversos aspectos da vida de sujeitos periféricos. O acesso à saúde de qualidade é um deles. De acordo com dados divulgados pela The Lancet, produzidos pela NCD Risk Factor Collaboration (NCD-RisC) em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o aumento no número de casos de diabetes nos últimos anos é alarmante, tendo em vista que a persistência global de diabetes em adultos aumentou de 7% para 14% entre 1990 e 2022, enquanto o acesso a medicamentos e tratamentos adequados não evolui na mesma velocidade. Nesse cenário, os países de baixa e até mesmo média renda apresentam os maiores números. 

Tipos e tratamentos para diabetes

Existem cinco tipos de diabetes, porém, de acordo com a professora Fabíola Yukiko Miasaki, médica endocrinologista da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a diabetes tipo dois é a mais comum. Esse tipo da doença é gerada por fatores genéticos, como a resistência à insulina ou a disfunção das células betas. Mas, também conta com a influência dos chamados fatores ambientais, que estão relacionados ao estilo de vida do paciente e incluem a forma de alimentação e a regularidade da prática de exercícios físicos. Por isso, a diabetes tipo 2 é considerada uma doença multifatorial, dependendo de diversas questões para o seu desenvolvimento.

O tratamento para a doença varia de acordo com seu tipo. Para o Tipo 1, na qual o problema se encontra na falta de insulina no corpo, é necessária a reposição desse hormônio com bombas de insulina. Enquanto para o tipo 2, a médica afirma que varia de acordo com o seu estágio. No caso do recém diagnosticado, o ideal são mudanças no estilo de vida do paciente, o que na questão nutricional inclui aumento do aporte de fibras, a não ingestão de açúcar de absorção simples e aumentar a proteína de suas refeições. 

Além disso, a inclusão da prática de exercícios físicos, de forma regular, na rotina do paciente é de extrema importância. Mas, em um estágio mais avançado, o tratamento é feito a partir de medicações que sensibilizem o fígado, como a metformina, para diminuir a resistência à insulina.

Desigualdades no acesso ao tratamento 

Diante desse contexto, pessoas em situação de vulnerabilidade encontram dificuldade em fazer o tratamento para ambos os tipos de diabetes e seus estágios. Em vídeo para as redes sociais, a bióloga Mari Kruger destaca como, para uma grande parcela da população brasileira, cuidar da própria saúde não é algo acessível. Kruger destaca como o mercado wellness que cresce nas redes sociais procura vender soluções irreais, principalmente por meio de vitaminas “milagrosas” que, muitas vezes, não estão nem mesmo associadas à causa do problema. 

De forma semelhante, a professora Miasaki destaca como a solução para os casos de diabetes não está apenas no acesso aos medicamentos, mas ele se concentra principalmente nas causas primárias: “Quando a gente está falando de política pública não é só dar o remédio, mas entender se o paciente sabe o  que é uma alimentação saudável e se o paciente tem acesso.” A especialista destaca como trabalhadores, e até mesmo estudantes, abrem mão da prática de atividades físicas em troca de seus estudos e sustento. 

Boom das canetas emagrecedoras

Além dos problemas já existentes no acesso à tratamentos para diabetes, a popularização das canetas emagrecedoras, como Ozempic e Mounjaro, dificultaram ainda mais esse processo. Apesar de sua função como medicamento, essas injeções passaram a ser vistas como mecanismo estético para alcançar o “corpo ideal” de forma rápida e fácil.

De acordo com o Conselho Federal de Farmácia, o uso dessas canetas em 2025 saltou 88% em relação ao ano de 2024. Com esse aumento, o preço desses medicamentos também subiu e os pacientes de baixa e média renda passaram a encontrar ainda mais desafios para conseguir o tratamento. 

As canetas emagrecedoras são, na verdade, dispositivos injetáveis que atuam imitando os hormônios naturalmente produzidos pelo intestino após a alimentação. Essas substâncias são responsáveis por informar o cérebro, estômago e pâncreas que o alimento chegou ao corpo. Assim, o apetite é reduzido, a sensação de saciedade é mais duradoura e há um melhor controle dos níveis de açúcar no sangue. 

Para Miasaki, a divulgação desses fármacos nas redes sociais como “ferramentas milagrosas” dificulta a distinção entre pessoas que necessitam do tratamento e aqueles que apenas buscam um facilitador para a perda de peso. Como consequência, oferecer as canetas de maneira gratuita pelo SUS, por exemplo, torna-se inviável. Dessa forma, como o tratamento fica cada vez mais inacessível e as comidas disponíveis para a população mais vulnerável são de valor nutricional baixo, os casos de diabetes crescem dentro desse grupo, assim como apontado pela The Lancet.