Desafios em projetos estudantis: vivências de alunos bolsistas em colégios particulares
Para além do ingresso em instituições privadas, as dificuldades do processo acadêmico geram barreiras para a integração dos alunos
Por Maria Eduarda Aya e Vitoria Mendes
As instituições de ensino privado elaboram projetos de bolsa estudantil, garantindo a alunos de baixa renda e vindos de escola pública a integração e o protagonismo educacional, através de infraestrutura e educação de qualidade. Contudo, essas iniciativas nem sempre incluem os alunos bolsistas, seja no aspecto social, seja na disponibilidade de recursos acadêmicos e financeiros e desconsideram as vozes e histórias dos alunos ingressantes.
Falta de recurso
Apesar da garantia dos estudos, durante o ano letivo, há a falta de suporte financeiro aos estudantes, algo apontado como barreira frente a oportunidade estudantil para a entrevistada Ranielly Pereira dos Santos, ex-aluna de um colégio particular de São Paulo. Desde o ingresso na instituição, as famílias arcam com custos elevados para a permanência do calouro na rede de ensino, por exemplo, na compra de materiais didáticos. Durante a entrevista, ela comentou que os gastos ultrapassam o salário mensal do responsável financeiro, somado às despesas particulares.
Tendo isso em vista, as dificuldades para a preservação de direitos básicos como alimentação e transporte são preocupações constantes dos alunos bolsistas.
“Ou a minha mãe pagava o meu almoço ou ela pagava o ônibus para eu voltar para casa. Não dava para fazer as duas coisas”, Ranielly dos Santos.
Frente ao desamparo, mesmo em um local de grande infraestrutura, a condição econômica da família é desconsiderada, afetando diretamente a situação financeira das estruturas familiares.
Cobrança e Cansaço
De acordo com os estudos da Instituição Unibanco, entre os 966 alunos de Ensino Médio entrevistados, 12,1% apresentavam a Síndrome do Burnout, distúrbio de estresse intenso no trabalho ou nos estudos. No entanto, esse cansaço e insegurança emocional é estimulado entre alunos financiados, devido a um esforço descomunal para manter a bolsa estudantil.
Uma ex-aluna do Colégio Bandeirantes, quando questionada se havia um receio de errar, afirmou: ‘’Fica mais fácil perguntar qual dia eu não senti [anseio]’’. Aos ingressantes do projeto era exigido média de notas elevada, a realização de atividades extracurriculares e trabalhos externos para a instituição parceira do Bandeirantes no processo de bolsas de estudo.
Além disso, os auxílios estudantis baseados em talentos, como as proporcionadas pelo colégio citado, provocam uma rivalidade entre os alunos dependentes do projeto, uma vez que instiga a necessidade de se sobrepor aos outros, fator agravante ao psicológico dos alunos bolsistas.
Bullying
O bullying sofrido por estudantes beneficiários de recursos estudantis é pautado no aspecto socioeconômico, racial e cultural. Segundo a formanda do Bandeirantes, a discriminação social perante os alunos com auxílio financeiro era uma questão recorrente, e carente de penalização, dependendo da orientadora.
Ela conta que um amigo dela foi vítima de falas racistas, as quais foram denunciadas, com provas, mas não foram repreendidas. Assim, devido à ausência de medidas disciplinares, muitas vítimas não informam as ocorrências sofridas, sobretudo, porque, no final, apenas agravam a relação do aluno bolsista com os demais estudantes.
O significado da Bolsa de Estudos
Através dessa oportunidade, alunos da rede pública têm a possibilidade de ampliar a perspectiva de futuro, além de tornar concreto sonhos que antes pareciam irrealizáveis.
‘’Foi como se me desse uma escada e eu podia definir quando e como ia ser o fim dessa escada’’, afirmou a graduada do Bandeirantes.
Contudo, pela ausência de auxílio financeiro, como no caso da Ranielly, e a falta de apoio moral e psicológico, essa jornada passa a ser árdua e desgastante, tal como incoerente, afinal os valores de integração promovidos pelos projetos de bolsa não se efetivam na íntegra.
