Cinema para poucos: ingressos caros e concentração de salas limitam acesso em São Paulo
Iniciativas como cineclubes, circuitos públicos e projetos itinerantes mostram caminhos para democratizar o cinema
Por Aísha Moraes, Brunno Praes e Carolina Passos
A Semana do Cinema, iniciativa criada por entidades do setor privado que busca fortalecer o circuito comercial com ingressos únicos a R$10 em todo o país, ocorreu entre os dias 28 de agosto e 3 de setembro. No entanto, existe o desafio de transformar ações pontuais em práticas efetivas que garantam o direito ao lazer e ampliem a presença da periferia nas salas. Apesar de pontuais, as medidas conseguem reduzir as desigualdades e garantir que as telonas também sejam um espaço democrático para a população periférica.
A cidade de São Paulo é conhecida por ser um polo cultural, oferecendo diversos tipos de atividades, porém, os valores desses eventos muitas vezes os tornam inacessíveis para uma parcela significativa da população. Com o cinema não é diferente. Ao analisar os valores dos ingressos de diferentes cinemas na metrópole paulista, o preço da inteira mais cara custa 40 reais e a mais barata, 23 reais.
“O preço do ingresso influencia muito. Conheço gente que não vai ao cinema e só vai em dia de meia-entrada porque não acha justo o valor do ingresso cheio”, comenta Manuella Costa, consumidora da Semana do Cinema, em entrevista ao Central Periférica.
Iniciativas populares e sociais
Os cineclubes de bairro são iniciativas culturais comunitárias e autônomas que exibem filmes fora do circuito comercial, em espaços como praças, escolas, bares e bibliotecas. Com acesso democrático, promovem debates sociais, políticos e pedagógicos, estimulando a formação crítica do público diante de produções para além dos blockbusters.
A cidade de São Paulo também conta com o Circuito Spcine, rede pública de salas mantida pela Prefeitura, que descentraliza o cinema e leva sessões a CEUs (Centros Educacionais Unificados) e equipamentos culturais, como o Cine Olido e o Centro Cultural São Paulo, com ingressos gratuitos ou simbólicos, entre R$ 2 e R$ 4. A programação inclui desde lançamentos até clássicos, mostras e obras de realizadores periféricos.
Projetos itinerantes também ampliam o acesso, como o Cinetruck, que leva cinema aos bairros periféricos, e o CineSolar, ao ar livre e movido a energia solar, com proposta educativa e sustentável.
Com o objetivo de incentivar o retorno do público às salas de cinema após a pandemia, os cinemas privados criaram a Semana do Cinema em 2022. A Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas (FENEEC), em parceria com a Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex (ABRAPLEX) e o Ingresso.com, passou a oferecer ingressos com preços mais baixos e combos promocionais em todos os cinemas do país.
Desigualdade regional no acesso às salas
Essas promoções não garantem uma democratização completa do cinema. Segundo o relatório anual de audiovisual de 2024, divulgado pela Agência Nacional do Cinema (ANCINE), existe uma disparidade entre estados brasileiros em relação à quantidade de salas para exibição. Enquanto São Paulo existem 1113 salas, o Acre possui sete, seguido por Roraima com 13 e Amapá com 15. Ou seja, as redes privadas e iniciativas públicas não abrangem todas as regiões, fazendo com que pessoas que moram em lugares distantes não consigam usufruir da experiência de ir ao cinema, mesmo com o desconto.
De acordo com a ANCINE, 45 dos 72 complexos de cinema da capital paulista estão localizados na região central, representando uma concentração de 62,5%. As salas de cinema restantes estão distribuídas de forma pontual ao longo de outras localidades do município. Isso significa que, para ter acesso aos filmes, a maior parte da população precisa se preocupar com valores para além dos ingressos, como aqueles relacionados ao transporte e à alimentação. Esses fatores acabam por definir quem terá ou não acesso ao cinema.
Algumas medidas constitucionais são tomadas com o objetivo de reduzir as desigualdades no setor cultural. A Constituição Federal, por meio do Artigo 215, expressa que “o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”. Já a Lei Rouanet surge com o objetivo de captar recursos, por meio da iniciativa privada, para possibilitar o acesso de uma maior quantidade de pessoas a atividades culturais.
