Cidade nas alturas: como a verticalização afeta o cotidiano dos moradores de periferias em São Paulo

O crescimento de moradias verticais nas periferias paulistanas revela os impactos da falta de infraestrutura, da redução dos espaços habitacionais e da exposição a áreas de risco

Por Hellen Rodrigues e Luiza Torre

Foto: Reprodução/ Wikimedia Commons

A verticalização desordenada em periferias é um processo de expansão urbana que ocorre de maneira que as casas são construídas para cima. Esse fenômeno ocorre nas áreas mais afastadas dos centros das cidades, que normalmente são caracterizadas por apresentarem uma baixa infraestrutura e habitantes de baixa renda em sua maioria. 

Na cidade de São Paulo, o adensamento populacional, junto com a especulação imobiliária, foram os grandes responsáveis pelo aumento dessa forma de organização residencial. Esse processo é facilmente percebido, por afetar rapidamente e de forma nítida as paisagens da metrópole. 

Habitações e condições de vida

As verticalizações em São Paulo tem como seu pilar os empreendimentos da Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação), localizadas em toda a zona leste da cidade. As habitações têm como propósito oferecer moradias de baixo custo na metrópole. Contudo, um projeto que nasceu para se tornar uma válvula de escape para a periferia se tornou mais um empreendimento governamental com foco no lucro.

Essa ideia pode ser desenvolvida a partir do retrospecto de apartamentos ao longo dos anos. Segundo dados do próprio site da Cohab, nas décadas de 1960 e 1970, os apartamentos variavam entre 52m² a 55m², e eram compostos por sala, cozinha, banheiro e geralmente dois a três dormitórios. Entretanto, durante  os anos 1990, período conhecido como ápice das verticalizações, devido a construção da Cohab 1 e 2, os apartamentos diminuíram para 45m².

Na atualidade, o número é cada vez mais preocupante. Com a escassez de grandes terrenos e novas regulações, os projetos se tornaram mais flexíveis. É possível encontrar empreendimentos recentes e projetos de Parcerias Público-Privadas (PPPs) de 28m², conhecidos como Kitnets. Deysiane Santos, ex-moradora de habitações populares relata sua vivência: “O apartamento na Cohab 2 era grande porque era uma construção antiga. Outras Cohab, como a Cruz do Espírito Santo, em Guaianazes, são bem menores”. 

Apesar de ser maior, a senhora afirma que o prédio não tinha estrutura básica, como gás e água encanada. A falta de luz era frequente devido a problemas nas instalações e as contas eram abusivas. Além disso, também relata problemas no saneamento básico e na estrutura física do prédio, as habitações tinham rachaduras devido a infiltração e o mofo estava presente em todo o prédio.

Não somente, a necessidade governamental em lucrar com um direito inato ao ser humano, como é o caso da moradia, cria um ambiente de insegurança e instabilidade, obrigando cidadãos a conviverem sem espaço próprio e condições dignas. Somado com os prejuízos residenciais, o ambiente que cerca as verticalizações também é de insegurança. A falta de policiamento e medidas que busquem manter a segurança do local cria um ambiente de incertezas e medo.

“Eram muitos vizinhos, você não tinha privacidade. As pessoas não entravam no seu apartamento para te roubar, mas nas redondezas era o que mais tinha. Eu tinha medo de atravessar a rua sozinha e ser assaltada”

Deysiane Santos

Áreas de risco

Outro desafio estrutural presente nessa forma de moradias é o agravamento do risco de deslizamentos de terra nesses locais. Segundo levantamento feito em 2024 pela Agência Pública, o município de São Paulo tem quase 200 mil moradias em áreas sujeitas a esse problema. 

O deslizamento de terra é um fenômeno natural que acontece em terrenos íngremes, em que um solo sobrecarregado se desprende do morro e escorrega rapidamente. No caso de periferias verticalizadas, a chance desse fenômeno acontecer é maior. O acúmulo de lixo que retêm a água da chuva e o desmatamento  de plantas que sustentam o solo são fatores que contribuem para a ocorrência desses episódios.

No caso de soterramentos, os danos para os moradores são físicos e morais. A perda de suas casas, a possibilidade de perda de suas vidas e o período que ficam desalojados afetam sua saúde física e mental. 

Ainda assim, as Cohab são, na maioria das vezes, a melhor opção que pessoas da periferia encontram para ter sua própria moradia. Contudo, entender a importância desses prédios não exclui a necessidade de se manter atento às condições de vida dos moradores, que não merecem receber uma condição precária apenas pelo preço ou pela localização em que vivem. Por isso, as verticalizações encontram problemas não em sua existência, mas na forma como controlam a gestão de suas habitações.