Após cinco anos, Brasil recupera certificação de eliminação do Sarampo
Recuperação do certificado pela Organização Pan-Americana de Saúde reflete esforço do país em combater a resistência vacinal
Por Isabella Zanelli, Lara Cáfaro, Luana Mendes e Maria Luiza Vieira
![[Imagem: Reprodução/Fotos Públicas]](https://centralperiferica.eca.usp.br/wp-content/uploads/2025/02/sarampo-capa-1024x684.jpg)
O sarampo, uma doença altamente contagiosa e potencialmente grave, voltou a ser uma preocupação no Brasil nos últimos anos. Após ter sido considerado erradicado no país em 2016 pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), o sarampo ressurgiu devido à queda na cobertura vacinal, combinada com a circulação do vírus em outros países. A interrupção de campanhas regulares de vacinação, desinformação sobre imunizações e a negligência nos calendários vacinais contribuíram para a reintrodução do vírus, resultando em surtos que afetaram milhares de pessoas, incluindo crianças, adolescentes e adultos.
A esse respeito, o infectologista Mário Eduardo Biill, comenta sobre a volta da doença, e os principais fatores que levam ao retorno do sarampo. “A gente tem, em vários países, uma redução nas taxas de vacinação, isso também ocasionado por um movimento antivacina e uma série de desinformação sobre vacinas. Então, as pessoas são vacinadas há décadas para o sarampo, mas esse movimento antivacina gerou uma série de medo e dúvida, isso diminuiu em vários locais, aqui no Brasil principalmente, uma queda muito baixa nas taxas de imunização”, afirma o infectologista.
O imunizante, aplicado em duas doses no calendário nacional, é altamente eficaz e seguro, oferecendo proteção de até 97% contra a doença. O infectologista ainda acrescenta a facilidade de transmissão como um dos principais empecilhos para a erradicação do sarampo, e reforça, mais uma vez, a importância da vacinação e de um sistema de saúde mais justo e eficaz.
Cinco anos após perder o certificado de eliminação do sarampo, em 2019, o Brasil recebeu novamente pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) o status de país livre da doença. Em cerimônia no dia 12 de novembro em Brasília, o presidente Lula e a ministra da Saúde, Nísia Trindade, receberam o diploma que representa “uma conquista que vem do compromisso da capacidade técnica”, segundo a ministra.
![Frente ao movimento antivacina, o governo de Lula fortaleceu e reafirmou a competência do sistema de vacinação brasileiro [Imagem: Ricardo Stuckert/PR]](https://centralperiferica.eca.usp.br/wp-content/uploads/2025/02/sarampo-lula-1024x711.jpg)
O esforço para a recertificação foi intenso. Em 2016 o país recebeu o certificado da eliminação do vírus, contudo, em 2018, com o grande fluxo migratório associado às baixas coberturas vacinais, o vírus voltou a circular, e em 2019, após um ano de franca circulação do vírus o Brasil perdeu a certificação de “país livre do vírus do sarampo”.
Em 2022 ocorreu o último caso autóctone ( com transmissão em território nacional) do sarampo, no Amapá, desde então, o número de casos está em queda. A retomada do Programa Nacional de Imunizações do Brasil, um dos maiores do mundo, tem contribuído ano após ano na qualidade de vida da população com a prevenção de doenças. Mário afirma que em caso de um surto de doenças, ter a maior parte dos cidadãos vacinados reduz potencialmente a cadeia de transmissão.
Desafios apesar do certificado
Apesar de o Brasil ter recuperado o certificado de eliminação do sarampo, o país ainda enfrenta desafios para controlar a doença. A desigualdade na distribuição de vacinas, por exemplo, agrava a situação de surtos em várias regiões, principalmente aquelas com infraestrutura de saúde precária e baixa adesão à imunização. A falta de centros de saúde, transporte e armazenamento adequado das vacinas também dificulta a implementação eficaz das campanhas de vacinação. Isso aumenta cada vez mais a vulnerabilidade dessas comunidades ao vírus, dificultando o controle dessa e de outras doenças.
Um dos principais obstáculos nas campanhas é a resistência vacinal, alimentada por fake news e movimentos anti-vacinas. A desinformação sobre os benefícios da imunização e a falsa percepção de que o sarampo é uma doença inofensiva comprometem os esforços para alcançar a cobertura vacinal necessária. Campanhas educativas enfrentam dificuldades para desmistificar essas ideias, especialmente em regiões com menor acesso à informação.
A importância da vacinação
A população precisa compreender os benefícios da vacina, principalmente porque a informação é essencial no processo. “É fundamental destacar que, quando muitas pessoas se vacinam, criamos uma imunidade coletiva, o que torna o ambiente e as pessoas mais protegidos. Além disso, a vacina não altera o DNA de ninguém, nem causa doenças genéticas. É essencial que todos compreendam os conceitos por trás da vacinação e restabeleçam a confiança nesse método”, afirma Mário.
Segundo o Ministério da Saúde, a vacinação é uma das estratégias mais eficazes para preservar a saúde pública e fortalecer uma sociedade mais saudável e resiliente. Além de prevenir doenças graves, a imunização ajuda a reduzir a disseminação de agentes infecciosos na comunidade, protegendo aqueles que, por motivos de saúde, não podem ser vacinados.
![De acordo com o Ministério da Saúde, em 2024 o país registrou 2 casos confirmados importados sendo 1 caso em janeiro, registrado no Rio Grande do Sul proveniente do Paquistão e 1 caso em agosto registrado em Minas Gerais proveniente da Inglaterra [Imagem: Reprodução/Freepik]](https://centralperiferica.eca.usp.br/wp-content/uploads/2025/02/sarampo-vacina-1024x565.jpg)
“O combate às notícias falsas é um passo crucial para impedir a disseminação de desinformações sobre as vacinas. É fundamental que órgãos regulatórios como a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o Ministério da Saúde e até mesmo o Instituto Butantan, responsável pela produção de vacinas, se posicionem contra essas campanhas de desinformação”, finaliza Mário Biill.