Agronegócio brasileiro aposta em tecnologia para vencer mudanças climáticas e produzir de forma sustentável
15 de setembro de 2026
Inovações em bioinsumos, manejo sustentável e biotecnologia ajudam o campo a enfrentar as mudanças climáticas sem perder produtividade
Por Bárbara Aguiar
Quem vive do campo já sabe: as mudanças climáticas deixaram de ser uma preocupação distante e se tornaram parte da rotina do agronegócio brasileiro. Entre secas prolongadas e enchentes inesperadas, produtores de todas as regiões sentem os efeitos diretos das variações do clima. Ainda assim, o setor segue como um dos pilares da economia nacional — responsável por 25,13% do PIB brasileiro em 2025 — e vê na tecnologia o caminho mais promissor para se adaptar e continuar crescendo.
Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o protagonismo do agro segue em alta: o PIB do agronegócio brasileiro fechou o ano de 2025 com um crescimento consolidado de 12,20% em relação ao ano anterior, segundo dados atualizados do Cepea/CNA.
Mas a mesma força que impulsiona o país também enfrenta um cenário de instabilidade crescente — marcado por secas severas, enchentes e desequilíbrios de temperatura que colocam à prova a capacidade do campo de continuar produzindo.
De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), desastres naturais e eventos climáticos extremos causaram US$ 99 bilhões por ano em prejuízos à agricultura mundial entre 1991 e 2023 — o equivalente a 4% do PIB agrícola global.
As secas respondem por quase dois terços dessas perdas, tornando o agronegócio um dos setores mais afetados pela crise climática. É diante dessa realidade que o Brasil tem se reinventado: em laboratórios, fazendas experimentais e startups, o campo se transforma em um ambiente de inovação, onde ciência e tecnologia passam a ser aliadas da produtividade e da sustentabilidade.
Do laboratório ao campo
Na unidade de Agrobiologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a pesquisa com bioinsumos revela o potencial da microbiologia para tornar o solo mais fértil e resistente. O pesquisador Jerri Edson Zilli explica que o uso de bactérias fixadoras de nitrogênio, um processo natural que substitui o fertilizante químico, evita a emissão de cerca de 200 milhões de toneladas de carbono por ano, contribuindo para uma produção de baixo impacto.
“Quando utilizamos a bactéria no lugar do fertilizante sintético, reduzimos drasticamente as emissões industriais e aumentamos a eficiência do uso dos nutrientes no solo”, afirma.
Esses microrganismos também ajudam as plantas a suportar temperaturas elevadas e períodos de seca, diminuindo o estresse causado pela falta de água. “Eles não são uma solução milagrosa, mas parte de um conjunto de práticas sustentáveis. O solo coberto, o plantio direto e os sistemas integrados de lavoura e pecuária completam o equilíbrio necessário para uma produção de baixo impacto”, complementa o pesquisador.
A evolução dos bioinsumos abriu caminho para novas aplicações da biotecnologia no campo — e uma das mais promissoras vem diretamente do semiárido brasileiro: na Caatinga, pesquisadores da Embrapa Milho e Sorgo isolaram bactérias capazes de ajudar as plantas a resistirem à falta de chuva.
O produto desenvolvido, batizado de Hydratus, forma uma película protetora ao redor das raízes, ajudando a reter umidade no solo e permitindo que a planta continue crescendo mesmo em períodos de estiagem. “É como um seguro natural: se chover, a bactéria ajuda a planta a crescer mais; se faltar chuva, ela protege a raiz”, explica Eliane Aparecida Gomes, pesquisadora responsável pelo projeto.
Nos testes realizados em áreas experimentais no norte de Minas Gerais, as lavouras tratadas com o Hydratus apresentaram maior uniformidade e melhor aproveitamento de nutrientes, mesmo com o déficit hídrico. A tecnologia também reduz a dependência de irrigação e de adubos químicos, diminuindo custos e impactos ambientais. Para Gomes, o produto é um exemplo de como a inovação científica pode responder, na prática, aos desafios impostos pelo clima.
Sustentabilidade na pecuária
Enquanto a agricultura busca soluções no solo, a pecuária também se adapta às novas exigências climáticas. O pesquisador José Ricardo Pezzopane, da Embrapa Pecuária Sudeste, lembra que o Brasil possui mais de 200 milhões de cabeças de gado e que o metano emitido pelos animais é um dos principais desafios ambientais do setor.
“Uma pastagem bem manejada tem enorme capacidade de fixar carbono da atmosfera. E, quando o animal recebe um alimento de qualidade, a emissão de metano é reduzida”, explica.
Além do manejo nutricional, os sistemas silvipastoris — que combinam árvores, pasto e gado na mesma área — têm mostrado resultados expressivos: “Nossas pesquisas apontam que é possível neutralizar as emissões de até 2, 3 bovinos por hectare nesses sistemas”, afirma o pesquisador.
Na prática, o sombreamento natural promovido pelas árvores reduz a temperatura ambiente, melhora o bem-estar animal e aumenta a produtividade do rebanho, enquanto o solo mantém a umidade e a fertilidade. O uso de geotecnologias, como imagens de satélite e sensores remotos, complementa o manejo e permite que produtores de diferentes portes tomem decisões com base em dados reais.
Inovação para todos
As pesquisas da Embrapa mostram que o futuro do agronegócio brasileiro passa pela combinação entre biotecnologia, manejo de precisão e conservação ambiental. Esse movimento é reforçado por um ecossistema de inovação que cresce rapidamente: segundo o Radar AgTech Brasil 2025, o país já conta com 2.075 startups do agronegócio, um aumento de 84,4% em seis anos. Essas empresas desenvolvem desde sensores de umidade e softwares de monitoramento climático até biofábricas de insumos naturais, tornando a inovação mais acessível e prática no campo.
E ela não fica restrita às grandes propriedades. Aos poucos, tecnologias antes vistas como distantes chegam também aos pequenos produtores, adaptadas à realidade local e com custos menores.
Diego Trindade, produtor rural e diretor financeiro do Senar Ceará (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural Senar) representa essa nova geração que enxerga a tecnologia como aliada diária do trabalho no campo. “Muita gente ainda acha que tecnologia no agro é coisa de multinacional, mas hoje ela pode e precisa estar na palma da sua mão. Já existem aplicativos que controlam sua lavoura pelo celular, drones compartilhados por cooperativas, tecnologias simples que avisam quando irrigar ou como controlar pragas. Isso não é luxo, é sobrevivência”, afirma.
Para ele, inovação é sinônimo de competitividade e inclusão. “A Embrapa, as startups e as universidades já criaram soluções acessíveis que aumentam a produtividade e reduzem o custo. Produtor que não se conecta à inovação corre o risco de ficar para trás”, alerta.
Vivenciando o dia a dia no campo, Trindade resume a transformação que tem guiado o novo agro: “Tecnologia no campo não é só para produzir mais, é para produzir com mais inteligência, mais segurança e mais mercado”.
