A religiosidade nas periferias paulistas: onde a fé encontra a luta cotidiana

O declínio do catolicismo tradicional e a ascensão de vertentes do pentecostalismo, em uma busca popular identitária por uma religião que compreenda a realidade das periferias de São Paulo

Por Nina Nassar e Fernando Silvestre

A Paróquia São José de Vila Zelina fornece sopa para famílias carentes e outras atividades de cunho social – Foto: Central Periférica

Nas periferias da região metropolitana de São Paulo, as igrejas pentecostais são  maioria se comparadas a outras denominações religiosas, especialmente àquelas do protestantismo histórico. O número de brasileiros que se declaram evangélicos, mas sem  vínculos com igrejas tradicionais, vêm crescendo significativamente nos últimos anos.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que esse grupo  teve um aumento de 466% entre 2010 e 2022. Esse fenômeno está relacionado, além do fator  do crescimento das grandes instituições pentecostais, especialmente, à proliferação de igrejas  autônomas fundadas por iniciativa individual nas periferias urbanas, muitas vezes sem qualquer ligação com instituições religiosas consolidadas. 

Chamadas de “igrejas de garagem”, são pequenos agrupamentos fundados como movimentos religiosos dissidentes, alternativos à experiência em outras instituições que,  muitas vezes, não agradou ou compreendeu a realidade dos fiéis. As histórias de vida desses  pastores autônomos revelam trajetórias profissionais instáveis, geralmente ligadas a  atividades manuais de baixa remuneração. Com o avanço da precarização do trabalho a partir  dos anos 1990, a fundação de uma igreja tornou-se, para muitos, uma forma de buscar  estabilidade. 

Contexto do protestantismo no Brasil 

O protestantismo é formado por diferentes vertentes tradicionais, como o luteranismo,  calvinismo e anglicanismo quando o movimento surgiu, mas há também os batistas, o  presbiterianismo, metodismo, e, cada vez mais forte, o pentecostalismo. No Brasil, o  protestantismo chegou através de missionários e imigrantes, no século XIX. Com a fundação da  Assembleia de Deus, em 1911, o pentecostalismo começou a se estruturar. Nas últimas décadas, o neopentecostalismo vêm crescendo expressivamente, com um  número cada vez maior de fiéis e, inclusive, ganha ainda mais força com a ascensão de líderes políticos que utilizam deste discurso religioso.  

Sendo uma igreja nova, popular e fortemente comunitária, a entrada na política lhe confere  um status oficial de autoridade, reduz os conflitos e divergências internas do mundo pentecostal,  confere títulos a uma nova hierarquia religiosa e oferece recursos financeiros que possibilitam sua  estruturação. A consolidação da bancada evangélica como protagonista na política brasileira  iniciou-se a partir de 2002, com a integração plena de Igrejas evangélicas à partidos, como foi o caso  do PSB e PRB.

Hoje, na política institucional brasileira, há 215 deputados da bancada evangélica e 26  senadores. Com a ascensão do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, o grupo evangélico ganhou  mais espaço e projeção, sendo colocados em cargos estratégicos no governo federal, como  representantes de diversos ministérios. Como reflexo disso, o número de fiéis se afiliando a igrejas  neopentecostais vêm crescendo cada vez mais: de acordo com o censo do IBGE de 2022, o grupo  “Evangélicos” cresceu de 21,6% (2010) para 26,9% (2022), enquanto os Católicos caíram de 65%  para 56,7%, indicando uma mudança significativa nas proporções religiosas da sociedade  brasileira. 

A nova forma de religiosidade nas periferias de São Paulo 

Frequentemente, “a periferia recebe estereótipos até contraditórios de violência e religiosidade, os quais, muitas vezes, não condizem com a realidade”, segundo o deputado Hélio Lopes. A cultura brasileira relaciona a procura da religião ao pobre, como uma forma de  escape e redenção da violência. No entanto, a violência está por toda parte, não apenas nas  favelas.  

A religião, muitas vezes, cumpre um papel de formação de caráter pautado na coletividade, fator que faz diferença na luta de resistência de pessoas em estado de  vulnerabilidade social e financeira. Jefferson Arantes, sociólogo da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) identificou em sua pesquisa que, em igrejas lideradas por mulheres, são formadas redes  femininas de solidariedade voltadas para o cuidado com os filhos e a troca de alimentos e  recursos, funções majoritariamente relacionadas à figura feminina em famílias com pouca escolaridade. 

Em entrevista ao Central Periférica, Carlos Alexandre Souza, o pastor da Assembleia de  Deus Vila Tietê, explica a lógica das igrejas: “A isca que eu uso para atrair, eu vou ser obrigado  a usar para manter”, metaforizando o fato de que o atrativo que a igreja usa para que a pessoa  venha, vai continuar sendo mantido como uma estratégia para mantê-la.  

“Tem o bônus e tem o ônus. Esse é o risco. Então, tudo tem que ser feito com  orientação. Mas igreja sem trabalho social, sem inclusão social, não é igreja. Ela tá desvirtuando. Porque o mesmo Jesus que disse: ‘Ide por todo mundo pregar o evangelho’. Em  Mateus 14, ele disse: ‘Dá-lhe voz de comer’. E esse ‘dá-lhe voz de comer’ não é Bíblia, é pão.  Então, a igreja tem uma obra social a ser feita. A igreja precisa cuidar da alma, do espírito e do  corpo das pessoas”, acrescentou. 

Dentre os católicos, o catequista de adultos Amarildo, da Paróquia São José de Vila Zelina afirma que a migração de fiéis do catolicismo para o protestantismo ocorre devido à  falta de uma formação eficiente no tema. São aqueles atraídos “por alguma coisa no momento  e vão mudando de acordo com o vento”.

Na tese “Pentecostalismo e juventude na periferia urbana: estudo sobre a sociabilidade de jovens da Igreja Assembleia de Deus Mistério São Bernardo do Campo no  bairro DER”, o sociólogo Sérgio Eugênio Ferreira de Camargo trabalha a ideia de que a vivência  religiosa entre os pentecostais das periferias de São Paulo permite um senso de comunidade  importante para eles. Jovens que não tinham nenhuma estrutura familiar, por exemplo,  aprenderam inúmeras habilidades com a religião.

No entanto, o autor coloca que a situação é complexa, devido ao fato de que, por estarem em situação de vulnerabilidade, essas pessoas que procuram sociabilidade nas igrejas,  muitas vezes, acabam sendo reguladas o tempo todo pela ética conservadora do  pentecostalismo, pautada na moral sexual e em valores tradicionais de família. Ele afirma que  os pentecostais falavam muito menos do evangelho ou do cristianismo e muito mais em  combater o pecado e a sociedade que deturpa os valores de Deus, destacando a regulação  moral que toma o espaço da discussão teológica. 

A queda do catolicismo 

Apenas na última década, segundo dados do IBGE, mais de 5 milhões de brasileiros  deixaram de se declarar católicos. Rodrigo Toniol, em um artigo de opinião para a “Folha de S.  Paulo”, destaca, entre suas pesquisas, a diminuição no número de mulheres religiosas nas instituições como um dos motivos para o declínio do catolicismo: elas eram as maiores  responsáveis por projetos comunitários ou missões de assistência social; sem essa participação,  o contato com a população e os vínculos cotidianos do catolicismo na sociedade são  enfraquecidos.  

Em entrevista ao Central Periférica, Toniol explica sobre a ausência de freiras: “O catolicismo no  Brasil sempre foi o catolicismo da religião popular, das festas de santo, dos reisados. Sempre foi  muita reza, pouca missa, muito santo, pouco padre. Mas isso mudou. O catolicismo se  transformou e fez uma opção pelo reforço institucional. Então, a instituição Igreja Católica está  muito forte. O que não tem sido acompanhado pela força do catolicismo”. A comunidade  católica, então, perde fiéis quando se torna mais masculina, mais institucional e distante da vida  diária.  

Em seu texto na “Folha de S. Paulo”, Toniol considera, também, que as igrejas evangélicas propõem um protagonismo feminino muito mais forte, o que traz um motivo para a maior adesão recente ao  pentecostalismo. No artigo “Mulheres de Favela e o (outro) feminismo popular”, de Nilza  Rogéria de Andrade Nunes e Anne Marie Veillette, é estudado o fato de as mulheres terem uma  posição fundamental nas culturas das favelas, uma vez que ganha protagonismo e um respeito  quase sagrado (nem sempre prático, mas muito reproduzido em falas populares), devido ao  trabalho de cuidado e de organização comunitária que lhes é comumente atribuído. Para Toniol, “elas  sempre foram as mediadoras. Ocupavam lugar nos hospitais, nas escolas, nas instituições de  assistência social”. Com o envelhecimento dessas religiosas e a não reposição desse núcleo  fundamental da religião, o ecossistema da religião é completamente modificado. 

No livro “A Fé e o Fuzil”, Bruno Paes Manso destaca mais um lado dessa religiosidade  ascendente, que demonstra que o pentecostalismo de grandes instituições pode ser nocivo à  emancipação através do pensamento crítico das populações periféricas: o novo sistema de  valores propagado por igrejas pentecostais (e por facções criminosas) age através de uma  reprogramação das mentes de pessoas em vulnerabilidade social por meio da conversão, promovida tanto por pastores em igrejas de bairro quanto por responsáveis do crime  organizado.  

A ausência do Estado para tratar das necessidades da população periférica brasileira  permitiu que se inventassem mecanismos para se autogovernar, “de baixo para cima”. Muitas  vezes, as grandes instituições pentecostais apelam à imagem de um Deus punitivo e incentiva  discursos característicos da extrema-direita de batalha espiritual e perseguição a inimigos, “em  que a pretensa guerra do bem contra o mal logo extrapola os cultos e passa a influenciar os  rumos da política nacional”, como disse o autor, em entrevista à Folha. Citando o teólogo Fernando Altemeyer Júnior, Manso diz que o pentecostalismo se tornou uma religião do capital,  em que o sucesso financeiro individual, considerado uma benção divina, se torna a razão de existir. 

Samuel Cerri, jornalista de entretenimento da Globo, um fiel e ex-evangélico, conta à  Central Periférica sobre sua experiência: “Acho que a Igreja Evangélica machuca as pessoas (é  mais cruel num geral) e então as pessoas, sem querer sair de sua fé, migram pra católica, e,  porque, em geral, a Igreja Católica não é tão excludente, então a maioria das pessoas que eu  conheço, têm uma segunda fé ao mesmo tempo – uma amiga minha é da umbanda, uma outra  amiga é mística, meu namorado acredita na umbanda, etc. Acho que tudo isso corrobora pra  uma virada no declínio do catolicismo e ascensão do cristianismo”

Sobre o aspecto de o pentecostalismo trazer um Deus vingativo, que condena pecados  e não oferece a salvação e redenção através do trabalho, ele completa: “Sou devoto da Santa  Maria Madalena, padroeira dos pecadores arrependidos, e até na oração para ela é dito  ‘porque muito amou, muito lhe foi perdoado’. Esse é o coração do catolicismo, a meu ver. E,  dos meus 18 anos em igreja evangélica, eu nunca vi isso”.