Do terrão aos grandes clubes: a conexão entre a periferia e o futebol profissional
O imaginário de ascensão pelo futebol inspira jovens em todo o país, mas o percurso até o profissionalismo é marcado por obstáculos que ultrapassam o talento com a bola nos pés
Por Alicia Dias e Hugo Boff
Das traves feitas de chinelo aos campeonatos mundiais, muitos dos grandes jogadores do futebol brasileiro tiveram seu primeiro contato com a bola em campos de terra batida. A modalidade, amplamente difundida na cultura nacional e facilmente praticada entre amigos, atrai diversos adeptos, de modo que o “bater bola” se torne uma atividade comum entre os jovens das mais diversas realidades socioeconômicas.
Em entrevista ao Central Periférica, Enrico Spaggiari, doutor em antropologia social pela Universidade de São Paulo, pontua que mesmo rodeados pelo cenário de baixa infraestrutura e abandono do Estado, muitos jovens se aventuram em iniciativas locais de apoio, como projetos sociais esportivos e ONG’s. De acordo com ele, a propagação cultural da modalidade, somada à disseminação desses espaços de prática do esporte, faz com que as periferias se tornem locais de observação e captação por clubes, treinadores, olheiros e outros agentes futebolísticos.
Das comunidades de norte à sul do país saem atletas que alimentam uma indústria bilionária, dentro e fora do Brasil. Entre eles, está Vini Júnior, que antes de se tornar um dos jogadores mais bem pagos do mundo deu os primeiros passos no futebol longe da estrutura luxuosa que cerca sua carreira atualmente.
O atacante da seleção brasileira, natural de São Gonçalo, treinava como bolsista na escolinha Fla Mutuá quando chamou a atenção de olheiros do Flamengo. A ascensão rápida de atletas como Vini é o que chama atenção de muitos jovens periféricos no exercício do futebol profissional. Spaggiari explica esse fenômeno ao ilustrar como a realidade contradiz a ideia de ascensão meteórica e comum à todos os praticantes.
“Um imaginário que é alimentado pelo próprio sistema futebolístico, que “vende” a ideia de transformação da realidade de famílias e grupos mais amplos a partir das trajetórias dos jovens. Mas, trata-se de um processo de muita competitividade em que somente um número muito pequeno de jovens conseguirá alcançar a esfera profissional”, alega o antropólogo.
Contrariando o que é prometido pelo “mercado da bola”, um jogador profissional pode receber pouco mais que um salário mínimo. Em um relatório divulgado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), sobre as contratações feitas por todos os clubes do país em 2026, consta a remuneração média anual de jogadores das diferentes divisões do futebol nacional. Enquanto um jogador da série A ganha em média R$ 253.573,13 mensais, um atleta de um clube da série D recebe cerca de R$ 1.859,80 por mês.
O primeiro obstáculo surge muito antes da assinatura de um contrato. Conseguir uma oportunidade em uma peneira depende de fatores que vão além das habilidades dentro de campo. Spaggiari ressalta como a caminhada até a profissionalização dos futuros talentos não é individual, mas coletiva e familiar. Segundo ele, “a família é o elemento central: pais, mães, irmãos e outros parentes organizam rotinas, financiam deslocamentos, acompanham peneiras, negociam com empresários e oferecem suporte emocional diante das incertezas do percurso”.
“Para cada jovem que atinge o topo e se torna profissional, milhares ficam pelo caminho.”
Enrico Spaggiari, Doutor em Antropologia social
