Por trás do ensino médio técnico: é possível sonhar com um futuro melhor?
Problemas na estrutura curricular desta modalidade de ensino dificultam o preparo para o vestibular
Por Alícia Simões e Mariana Greco
O ensino médio técnico, conhecido em São Paulo especialmente pelas Etecs (Escolas Técnicas Estaduais) e IFs (Institutos Federais), é uma modalidade de ingresso à etapa final da educação básica, sendo diferenciada pela inserção de matérias para além da grade curricular comum. A proposta é um ensino que profissionalize o jovem para o mercado de trabalho, visando uma carreira imediata após a conclusão do curso. Entretanto, a opção que parece enriquecedora à primeira vista pode ser o grande dificultador para um futuro mais estável e com melhores oportunidades.
Este questionamento decorre do método como a grade curricular é organizada: com horários limitados, o ensino profissional passa a “competir” com o currículo usual, muitas vezes se sobrepondo a disciplinas essenciais para a formação intelectual, social e linguística dos jovens. Hellen Rodrigues, estudante da USP que foi aluna da Etec Professor Aprígio Gonzaga, na zona leste de São Paulo, relata que teve dificuldades no vestibular porque os conteúdos programáticos do ensino médio não foram totalmente contemplados devido à falta de estrutura da grade, e que só foi aprendê-los verdadeiramente no cursinho pré-vestibular. Além disso, Hellen também comenta sobre a má disposição das matérias que permaneceram: “Eu acho que a pior parte é que algumas matérias que as pessoas têm em base curricular normal como filosofia e química, eu não tinha no terceiro ano. (A Etec) estava me ensinando, sei lá, coisas muito mais técnicas de uma carreira que eu não iria seguir.”
A problemática acerca do tema não termina no âmbito escolar. Impulsionados com a ideia de ingressar no mercado de trabalho, muitos adolescentes que cumprem o ensino técnico param neste estágio de formação acadêmica. Além disso, nas Etecs pouco se fala sobre a possibilidade de entrada em uma boa universidade pública, como a Universidade de São Paulo, que pode traçar um futuro com uma carreira mais segura, e também pouco se instrui sobre como é o processo de ingresso delas. “O meu grupo de amigos sempre teve esse sonho de passar em uma boa universidade, mas o resto da sala era bem “ah, terminando aqui eu vou encontrar um emprego”, ou já começava a trabalhar antes”, comenta Hellen sobre as expectativas que rondavam sua turma no ensino médio técnico.
Uma pesquisa recente realizada pela Globo comprova que histórias como a da estudante são comuns: para 90% dos entrevistados, a faculdade aparece em segundo plano, perdendo espaço para objetivos como empreender/abrir o próprio negócio, 28%, ou ingressar no mercado de trabalho e fazer um ensino técnico, ambos com 27%.
Com todas essas perspectivas, muitos estudantes do ensino médio técnico que possuem o sonho de cursar uma faculdade muito concorrida acabam se sobrecarregando com a quantidade de demandas. Pela escola não suprir as necessidades curriculares que são esperadas ao prestar vestibular, alguns optam por realizar cursinhos pré-vestibulares ao mesmo tempo em que cursam o colégio. Com isso, a rotina fica bastante cansativa, com aulas, trabalhos, provas, cursinho e diversas outras coisas. “Não é à toa que eu ia muito para a escola cansada porque no outro dia eu tinha chegado bem tarde do meu cursinho e tinha que ir lá ficar escutando o professor falar de um assunto que não me interessava”, relata Hellen.
