Juventude periférica ressignifica o engajamento político

Liderança do movimento estudantil revela caminhos e desafios na inserção da juventude na política

Por Arthur Souza, Letícia Menezes e Luana Riva

As iniciativas políticas são o centro da dinâmica governamental, representando o conjunto formal de ações, propostas e regulamentos criados para transformar uma demanda social reconhecida em resposta estatal efetiva. Um dos exemplos de iniciativas políticas é a implementação do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, que tem como objetivo principal o combate do desmatamento ilegal até 2030. 

A execução de uma iniciativa pública consiste em um complexo ciclo de governança. O processo inicia-se na identificação do problema e na inclusão na agenda pública, passando pela formulação técnica de soluções, negociação política para adoção formal, seja legislativa ou executiva, e culminando na implementação e avaliação dos resultados, garantindo que o ciclo termine com um processo de melhora na democracia e adaptação às necessidades da sociedade.

Potencialidade da juventude

Muitas das discussões que levam à formulação destas iniciativas vêm da mobilização popular. Manifestações, movimentos e protestos são fontes para o Governo escutar as revoltas da população e, assim, pensar em reformas para que o interesse público seja alcançado.

A juventude é uma das parcelas majoritárias que compõem essas movimentações. O pesquisador argentino Pablo Vommaro, em uma entrevista à plataforma Educação e Território, falou sobre o engajamento desse grupo. “Temos muito o que aprender com as mobilizações de juventude, assim como de suas organizações que diluem fronteiras de gênero, de territórios. Está em jogo uma grande construção do público: como brecha, como grito, como espaço intermediário entre o Estado e o mercado”.

A potencialidade dos jovens na política ultrapassa o ato de votar, ela revela-se por meio de organizações civis, ativismo – que, atualmente, transborda sobre o ambiente digital – e um interesse cada vez mais notório pelo poder de decisão de seu próprio futuro. Ainda que contestadas, as iniciativas políticas da juventude, em especial a periférica, mostram a renovação do movimento estudantil, agora como um amparo na tentativa de mudar estruturas sociais.

Yasmim Souza, vice-presidenta da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (UPES), disse ao Central Periférica sobre sua trajetória na política. “Eu iniciei a minha trajetória [na política] ao perceber em um amigo que ele olhava para a nossa comunidade de um jeito que ninguém nunca olhou”.

Como os jovens se inserem na política?

Oriunda da Zona Norte, Yasmim Souza afirmou que seu interesse nesse campo de estudo e lutas teve início quando tomou consciência dos abusos de poder pelos políticos e das desigualdades intrínsecas ao sistema. 

A estudante comentou que para inserir a juventude na política faz-se necessário, primordialmente, “incitar a consciência de classe” e abordar a importância da busca por conhecimento, fragilizada pela força dos discursos dos setores conservadores: “Eles não têm interesse em entrar dentro da universidade, muito pelo discurso da extrema direita, que tem falado que entrar na faculdade não dá retorno”. O discurso, somado à falta de acesso, corrobora para uma alienação sem precedentes dos futuros adultos do país. 

“Não adianta o Governo Federal lançar mil projetos se não existe uma escuta ativa, se a juventude não consegue te escutar. Então, a gente leva essas políticas de uma forma que eles entendam.”

Yasmim Souza, vice-presidenta da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (UPES)

Para romper com isso, a UPES realiza iniciativas nos extremos de São Paulo, com projetos na base educacional dos estudantes. A vice-presidenta alega que o movimento não luta apenas no Congresso, mas está presente, também, na vida dos jovens, que gostam de se envolver no “fazer político” quando estão inseridos em projetos que possuem perspectivas positivas quanto ao acontecimento de mudanças sociais. Dessa forma, eles  enxergam o movimento estudantil e partidário  como um lugar propício para essa estruturação. 

Obstáculos para a mobilização 

O desinteresse crescente dos jovens pela política tradicional é um dos maiores desafios enfrentados por partidos e movimentos sociais, que têm reagido e adaptado seus estilos de comunicação às linguagens da juventude. Embora se configure como um fenômeno geral, a falta de mobilização dos jovens é mais sensível nas periferias, como revela um censo realizado pela Rede Nossa São Paulo em 2021, segundo o qual dois a cada três jovens em regiões periféricas dizem não se interessar por política.

No atual cenário, Yasmin identifica alguns pontos centrais para o desencontro entre os movimentos políticos e a juventude periférica, desde leis e normas que limitam o pensamento crítico no processo educacional, a problemas de articulação dos próprios partidos ou agremiações. 

Segundo a militante, a atuação dos movimentos estudantis, como a UPES, nas escolas é dificultada pelo aparelhamento das instituições públicas de ensino pela Secretária Municipal de Educação de São Paulo, que proíbe a entrada desses coletivos sob alegação de evitar a doutrinação ideológica. “O movimento estudantil está fragilizado porque não consegue organizar os estudantes dentro das escolas, porque a gente não pode entrar”, acrescenta.

Com a ausência dos movimentos estudantis e de letramento crítico nas escolas públicas das periferias, Yasmin enxerga um crescimento de ideologias de extrema direita entre os estudantes e entende que a esquerda, muitas vezes, carece de comunicação direta e clara com a juventude periférica. Ela conclui: “O maior obstáculo hoje para a organização do movimento estudantil e da nossa juventude é o avanço exacerbado da extrema direita. Então, a gente traz muito essa questão: escola sem partido para quem?”