Centro de cultura afrobrasileira aponta para o futuro fortalecendo laços com o passado

Por Gabriela Braga, Letícia Pelistrato e Lara Cuin

Vistas da entrada (esquerda), das escadas (direita acima) e dos tecno-orixás no jardim (direita abaixo). Padrões africanos das paredes internas (triângulos à esquerda acima) – Fotos: Letícia Pelistrato/Central Periférica

Este espaço poderia ser descrito como uma espécie de portal afro-futurista que une tradição diaspórica com uma pegada de arte urbana contemporânea. Pouco conhecido, mas extremamente potente, o Centro de Culturas Negras “Mãe Sylvia de Oxalá” (CCN) foi o primeiro centro cultural do Estado de São Paulo, um local repleto de história e estórias, mas de poucos stories. Ele pode parecer um tanto escondido, mas fica a poucos minutos a pé do metrô Jabaquara, última estação da linha azul, na Zona Sul. Curioso é que não haja nenhuma placa que indique seu caminho, em uma cidade com tantas placas com a direção do Autódromo de Interlagos.

A única placa encontrada indica apenas o Sítio da Ressaca, mas não sinaliza nem o CCN, nem a Biblioteca – Foto: Letícia Pelistrato/Central Periférica

Trata-se de um complexo cultural dedicado à valorização da identidade afrobrasileira, composto não apenas pelo Centro Cultural, mas também pela Biblioteca Paulo Duarte — especializada na temática negra — e pela “Casa do Sítio da Ressaca”, que pertence ao Museu da Cidade de São Paulo. Diariamente são oferecidas atividades culturais gratuitas que contemplam desde o público infantil até a terceira idade, como oficinas, espetáculos musicais, peças de teatro, roda de capoeira e muito mais. Tudo isso rodeado por um amplo espaço verde com uma área total de cerca de 11 mil m², onde ocorrem atividades ao ar livre, como o ensaio do coletivo de maracatu.

Vista do parque que também atrai famílias para um piquenique ou um passeio com os pets – Foto: Gabriela Braga/Central Periférica

Esta região do Jabaquara — antes de ser conhecida por sua rodoviária e vans clandestinas para o litoral — carrega esse nome por ter sido um Quilombo de Passagem, local de descanso de escravizados em direção ao Quilombo do Jabaquara, situado em Santos, referência na luta abolicionista, que chegou a abrigar até 10 mil pessoas. A palavra “yabaquara” vem do tupi e se deriva da junção dos termos “yaab” (fugitivo) e “quara” (toca ou buraco), sendo uma referência histórica ao local que servia como refúgio afro-diaspórico. 

E como em muitos outros locais no Brasil, também houve aqui, ao longo do tempo, um processo de apagamento histórico em relação às lutas de resistência do povo negro e indígena. Como nos lembra a historiadora Lilia Schwarcz: 

“No Brasil pessoas negras morrem duas vezes: fisicamente e na memória. Feita na base do lembrar pouco e esconder muito, a nossa história oficial tornou-se por demais colonial, europeia, branca e masculina. Sobre as populações negras, espalhou-se um imenso silêncio, quando não a invisibilidade e o apagamento.”

Mas esse espaço vivenciou não só o resgate dessa história, como devolveu a ela sua concretude espacial e cultural. Isso porque em 2018, o centro cultural alterou seu nome — que era apenas Centro Cultural do Jabaquara — para homenagear Mãe Sylvia de Oxála, idealizadora e fundadora do Acervo da Memória e do Viver Afro-brasileiro “Caio Egydio de Souza Aranha”, abrigado no centro cultural na década de 1990. Ela que também foi enfermeira, administradora e empresária, esteve no comando do Instituto Axé Ilê Obá, primeiro espaço de Candomblé tombado como patrimônio histórico e cultural pelo Conselho de Defesa do Patrimônio  Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT ) em 1990.

Mãe Sylvia de Oxalá guardando a entrada da biblioteca Paulo Duarte – Foto: Gabriela Braga/Central Periférica

No mesmo ano da mudança de nome, o centro sofre um ataque racista de vandalismo, tendo uma de suas placas de identificação rasgada e o banheiro feminino pichado com uma suástica nazista, em pleno dia da Consciência Negra, 20 de novembro de 2018. Na época, Mãe Paula de Yansã, filha e sucessora de Mãe Sylvia, afirmou: “Os negros construíram esse bairro. Por isso, esse não é um ataque somente contra um acervo, mas contra a cultura de um país”.

Quadro que nos leva a refletir sobre as diferentes formas de apagamento cultural – Foto: Gabriela Braga/Central Periférica

Criado em 1980, com um arrojado projeto de arquitetura de traços modernos e brutalistas, o prédio construído à meia encosta do terreno, em concreto aparente e amplas vidraças, serviu de modelo arquitetônico para o Centro Cultural São Paulo.

Vista inferior (esquerda) e interior (direita) que levam ao primeiro andar, onde está a biblioteca Paulo Duarte – Foto: Letícia Pelistrato/Central Periférica

O objetivo inicial do pólo cultural era valorizar a Casa-Sede do Sítio da Ressaca, promovendo a restauração do prédio histórico e construindo no mesmo terreno um espaço cultural multiuso. 

O museu conta com visitas educativas sem necessidade de agendamento, exceto para grupos. Para saber mais, clique aqui – Foto: Gabriela Braga/Central Periférica

Hoje o cinza do concreto convive harmonicamente com uma série de grafites que homenageiam ícones históricos da negritude, especialmente mulheres negras de luta, como Anastácia, Maria Felipa, Aqualtune, entre outras. O prédio possui três pavimentos, sendo um deles o terraço com função de mirante e pista de skate, que encontra-se atualmente fechado para reforma.

Logo na primeira área do Centro de Culturas Negras, o mural feito pelo artista @cyrackz_art transborda vida através de seus detalhes – Foto: Letícia Pelistrato/Central Periférica

Abaixo dele está instalada a Biblioteca Municipal Paulo Duarte com um acervo de mais de 38,9 mil exemplares para todas as idades, dos quais mais de 3,2 mil são específicos da cultura afro-brasileira. Além de empréstimos, são promovidos também eventos como oficinas, saraus e rodas de conversa. Seu alpendre com vidraças voltadas para o verde da paisagem convida a descansar os olhos da leitura na natureza, conectando o interior ao exterior.

A combinação entre arquitetura, arte e natureza criam uma atmosfera especial – Foto: Gabriela Braga/Central Periférica

Descendo as escadas, encontra-se o pavimento do Auditório Carolina Maria de Jesus, que homenageia esta escritora negra, autora de obras como “Quarto de Despejo: Diário de uma favelada”. Com uma programação diversificada, que vai do hip-hop ao samba-rock, da contação de estórias à palestras sobre história, de gastronomia à moda, o auditório é palco de muita cultura feita por e para a comunidade negra.

“A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.” — Carolina Maria de Jesus – Foto: Letícia Pelistrato/Central Periférica

No jardim, encontra-se uma atração à parte: esculturas da série Tecno-Orixás, do  artista plástico Valter Nu, que une tradição e modernidade ao recompor figuras mitológicas Iorubá numa versão urbana contemporânea, utilizando como matéria-prima sucata eletrônica, como peças de computadores e celulares. As obras se apoiam em estudos dos mitos desta cultura de matriz africana e colocam a consciência ecológica não só no discurso artístico, mas em sua prática, ao dar um destino criativo ao que seria descartado, poluindo o meio-ambiente. A opção pelo material foi também uma contingência financeira: não dispondo de capital para compra de materiais mais caros, como o bronze, Valter passou a coletar resíduos em caçambas e lixões para seu fazer artístico. 

Oxum “aponta” a esquerda, convidando os visitantes a prestigiar as esculturas. Atrás dela, Ogum estaciona sua moto – Foto: Letícia Pelistrato/Central Periférica

Dialogando com o afrofuturismo, a proposta do artista é trazer a personalidade de cada orixá para uma linguagem urbana. Por exemplo, o guerreiro Ogum, que é feito de placas de computadores, surge em cima de uma moto abrindo caminhos; Oxumarê, entidade do movimento, aparece como uma cobra que se equilibra num skate; Iansã, rainha dos ventos, tem um vestidos feito com hélices de ventiladores.

Oxumaré em formato de cobra parece ser observado por Iemanjá – Foto: Gabriela Braga/Central Periférica

Já Iemanjá, senhora das ondas é composta por auto-falantes e surfa nas ondas sonoras da comunicação; os espelhos de Oxum são representados pelo arranjo de milhares de discos rígidos de laptop; o caçador Oxossi, que possui muitos olhos, é feito de lentes e armações de óculos. 

Iansã com seu vestido de hélices – Foto: Gabriela Braga/Central Periférica

E assim, o artista cria sua própria interpretação contemporânea para uma tradição milenar. Lembrando que aprender sobre mitologias de matriz africana não implica em aderir a nenhuma religião. Assim como o estudo das mitologias gregas ou romanas, outras mitologias — como por exemplo a inca, esteca e as de matrizes indígenas — são de extremo interesse cultural, artístico, antropológico e social. 

Serviço

Endereço: Rua Arsênio Tavolieri, 45 (Metrô Jabaquara – Linha Azul)

Centro Cultural: Terça a domingo – 10h às 21h.

Biblioteca: Segunda a sexta – 9h às 18h, sábado – 10h às 14h

Museu Casa Sítio da Ressaca: Terça a domingo – das 09h às 17h