A importância de protagonistas mulheres para meninas

Como o foco em personagens femininas empoderadas no audiovisual afeta a autoimagem de garotas entre 10 e 14 anos

Por Ana Carolina Mattos e Manuela Trafane

O filme é uma das animações mais cotadas para a premiação do Oscar em 2026 – Foto: Divulgação/Netflix

Lançada em 2025, a animação Guerreiras do K-pop (Sony Pictures Animation) conta a história de um mundo atacado, durante séculos, por demônios que roubavam as almas da população para alimentar o rei do submundo. Nesse contexto, três amigas se tornam caçadoras de demônios, guerreiras mágicas que os derrotam a partir de suas vozes e danças — a base de suas habilidades. O estrondoso sucesso do filme levantou debates e questionamentos sobre como a representação feminina no audiovisual afeta a autoimagem de garotas na pré-adolescência, e como elas lidam com a mídia. Para entender como a existência, ou não-existência, de personagens femininas empoderadas molda meninas entre 10 e 14 anos, o Central Periférica entrevistou a psicóloga e cinéfila Marcia Belinazo.  

Marcia Belinazo é psicóloga clínica formada pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) – Foto: Reprodução/Instagram @marciabelinazopsi

Central Periférica: De que forma o conteúdo consumido por garotas entre dez e quatorze anos afeta a construção de suas personalidades e suas autoimagens?

Marcia Belinazo: Nesse período estamos entrando na adolescência, uma fase em que existe uma busca para pertencer de alguma forma. Um desejo de não só entender o universo do qual fazemos parte, como também de encontrar elementos que criem boas pessoas. Porque nasce um questionamento se de fato eu sou bom o suficiente ou se não. Assim, o adolescente vai se moldando a partir das coisas que percebe não só nesse filme, como em outras produções audiovisuais, e vai modelando seu comportamento. Então a fase entre os 10 e os 14  anos é uma fase de construção de personalidade, é o momento em que estamos nos entendendo no mundo, como se estivéssemos juntando peças de um quebra-cabeça para tentar se entender e criar uma identidade.

O que acontece, psicologicamente, na fase da pré-adolescência que torna essa etapa tão sensível ao que é consumido na produção audiovisual?

O nosso aparato cerebral ainda não está formulado oficialmente. O córtex pré-frontal ainda está se desenvolvendo, por isso ficamos mais sensíveis a tirar conclusões equivocadas, então ‘ser isso significa se tornar aquilo’. Tem um exemplo disso na série “Adolescência”. Nessa série, ele [o protagonista], acaba interagindo com o movimento redpill, e entende que as mulheres não são legais, ou melhor, que as mulheres que o rejeitam não são legais. Essa série faz uma boa intercessão de como na adolescência não estamos com a cabeça desenvolvida e por isso internalizamos certos conceitos sem tanto filtro, sem tanta reflexão. O que acontece nesse período é que, ao consumirmos o audiovisual, existe uma tendência muito grande de internalizar certos conceitos propagados nos filmes ou nas séries como verdades absolutas, de forma equivocada. Tanto regras em relação ao certo e ao errado, em relação ao nosso corpo ou o que define se uma pessoa merece ou não ser amada.

Como essas garotas costumam formar a própria identidade? Quais são os principais pontos de referência? 

Vemos isso na família. Formamos nossa identidade a partir das referências em casa, das nossas amizades e também a partir desse conteúdo que é consumido. Então, se todas as minhas amizades têm um certo estilo, muito provavelmente eu vou adotar aquele mesmo estilo, para pertencer.

De que forma a falta de modelos diversos de mulheres pode afetar a autoestima e a percepção de futuro dessas meninas?

Hoje essa é uma pauta muito mais discutida, então os impactos estão um pouco menores do que já foram um dia. Talvez o que ainda apareça atualmente, é o ideal de certas regras sobre a rotina dessas meninas ou de que tipo de corpo precisam ter. Apesar de haver mais discussões sobre a existência de uma diversidade de cabelos, de estilos de roupa, de tipos de corpo… ainda existem regras sobre como você precisa se vestir. Porque se você não se encaixar em um determinado estilo, cabelo ou roupa, talvez não seja tão legal, tão boa ou tão bonita assim. Acho que apesar dos debates, a falta de diversidade, que culmina nessa padronização, do que é bonito e aceitável, é o que pode afetar as meninas. No sentido de se eu não me enquadro no que é exigido como padrão, eu não sou o suficiente, não sou bonita suficiente, não sou descolada o suficiente.

Quais são os sinais mais comuns de que uma menina está sofrendo por falta de identificação ou por padrões inalcançáveis?

Um dos maiores sinais é a vergonha, buscar de certo modo se esconder. Não se sentir de fato confiante com sua aparência e começar a desistir de tentar se identificar ou de se cuidar, justamente por achar que não vai adiantar, porque esse padrão nunca será alcançado. O que pode até mesmo causar o desenvolvimento de alguns transtornos um pouco mais graves, como ansiedade, talvez até depressão. De tanto não se identificar, de tanto tentar pertencer a um padrão inalcançável e não conseguir, a pessoa se esgota. Começa a ficar cansada de tentar e passa a ter vergonha das coisas simples, como usar biquíni ou admitir ter um transtorno.”

 Que tipo de conteúdo faz diferença real na vida dessas meninas?

Muito mais que as expor a um certo conteúdo, é necessário permitir que as meninas nessa faixa etária possam se expressar e possam se compreender para além daquilo que terão de informação. Muitas vezes não é sobre o que elas precisam ouvir, é sobre o que elas precisam falar, sobre qual espaço elas precisam ocupar, elas enquanto elas. Um bom entendimento para se ter nessa faixa etária, que faz a diferença, é sobre quais são os pontos fortes que elas possuem, os pontos de melhoria e os sonhos que elas têm para sua vida. Ou seja, um conteúdo que possibilite autoconhecimento e autoconexão e não somente as faça internalizar um monte de regras e deveres impostos pela sociedade.

O filme Guerreiras do K-pop mostra meninas comuns enfrentando situações complexas. Que impacto isso pode ter na autoestima e no senso de possibilidade das espectadoras?

Diferente dos filmes em que as personagens precisam ter um superpoder, na vida precisamos passar por desafios mesmo não tendo grandes habilidades, no sentido de não ter superpoderes. Mesmo sem esses poderes, uma menina tem total capacidade de enfrentar seus desafios e de vencer seus  bloqueios. Então, de certo modo, isso mostra que não é necessário ser uma pessoa mega especial, com uma habilidade que ninguém mais tem para conseguir enfrentar as situações difíceis. Isso pode sim aumentar a ideia de que: ‘caramba, eu também não tenho poderes e eu também posso conseguir o que busco e almejo.’

Como responsáveis e educadores podem usar “As Guerreiras do K-pop”, ou outros filmes, como ponto de partida para conversar com meninas sobre identidade e representações?

Eu faço justamente isso, uso filmes como ponto de partida para conversar  sobre identidade, emoções e representações; não só com pré-adolescentes mas com adultos também. Acredito que qualquer filme é um veículo lúdico para poder se ver através de um personagem, o que revela coisas sobre você que nunca imaginou que pudesse ter. Quando se foca na autoanálise, sem recursos externos, ficamos muito limitados aos nossos pontos cegos. Ao usar um filme, é despertada segurança e criatividade, para que um paciente ou um aluno possa se identificar. É retirada a pressão de ter que entender sobre si apenas analisando sua própria mente e seus pensamentos, o que dá ferramentas para montar esse quebra-cabeça de quem você é. 

Em “As Guerreiras do K-pop”, a amizade entre as três meninas é muito importante para a trama, um contraponto a produções que normalmente falam mais sobre rivalidade entre supostas amigas. Como esse tipo de representação influencia como as meninas se relacionam? 

O que eu vejo dessa transformação, apesar de existirem sim filmes antigos que retratam amizades sem competição, é que hoje existe um maior foco nessa coisa do pertencer sem ter uma disputa. Atualmente, as mulheres, de modo geral, estão começando a se entender e se abraçar mais — no sentido de entender por quais desafios passamos enquanto mulheres, sem ter que julgar este feminino, sem ter que rivalizar ou se destacar. Pode ser um pouco nesse campo de ideias.