Ondas de calor e periferia: impacto das altas temperaturas em quem vive em áreas com pouca arborização e casas precárias
Altas temperaturas expõem desigualdades e ampliam riscos nas áreas mais vulneráveis da cidade
Por Giovanna Martini e Victória Guedes
O fim do ano se aproxima e, com ele, o verão e as altas temperaturas. Assim como o frio, o calor extremo também é motivo de preocupação, especialmente porque a população de baixa renda têm menos recursos para se proteger das ondas de calor.
De acordo com uma pesquisa realizada em 2024 por Renato Anelli, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o bairro de Paraisópolis registra temperaturas até 8°C mais altas do que o Morumbi, mesmo estando ao lado. A principal causa desse problema é o chamado adensamento construtivo — fenômeno que ocorre quando há muitas construções concentradas em uma área pequena. Esse adensamento dificulta a circulação do ar e impede que o calor absorvido pelo solo seja dissipado ao longo do dia e da noite. No Morumbi, por outro lado, a configuração urbana é diferente: as construções são mais espaçadas, o que favorece a ventilação e reduz a sensação de calor.
Em estudo recente, cientistas da Comissão Europeia do Joint Research Centre (Centro de Pesquisa Conjunta), analisaram que em megacidades globais, como Londres e Nova York, a temperatura média costuma ser entre 10 a 15°C mais quente do que regiões arborizadas. O grupo de estudiosos ainda aponta que as áreas periféricas são as mais impactadas pelo calor, em decorrência das condições precárias de moradia.
Em entrevista ao Central Periférica, Helena Ribeiro, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, explica que a expressão “bairros periféricos” não é a mais adequada no sentido geográfico, já que “as áreas mais quentes são geralmente as áreas centrais mais impermeabilizadas e com menores índices de vegetação”, pois o fator decisivo para as temperaturas extremas é o tipo de urbanização e não a localização. “Hoje em dia, há condomínios de renda alta e média alta, que são muito arborizados, que se localizam em periferias das cidades e não são super aquecidos”, completou Helena.
Entenda as ondas de calor
A onda de calor é um fenômeno atmosférico caracterizado por um aumento anormal das temperaturas em determinada localidade quando comparada às temperaturas máximas consideradas normais para a mesma área. O aumento repentino das temperaturas são decorrentes de movimentos da atmosfera denominados de massa de ar quente, que resulta em um calor intenso e pode causar mudanças na umidade relativa do ar. A denominação de “ondas de calor” acontece quando essas massas atingem temperaturas acima de 90 ou 95% das temperaturas máximas médias em uma determinada estação do ano, por um período de dias, geralmente de três a cinco. Apesar de serem um fenômeno natural da atmosfera, com o aquecimento global do planeta elas têm se tornado ainda mais intensas e frequentes.
As ondas de calor acontecem, na maioria das vezes, quando sistemas de alta pressão mantém o ar quente parado sobre uma região por vários dias, impedindo a circulação e a renovação das massas de ar. Fenômenos como o El Niño – caracterizado pelo aquecimento anormal e persistente da superfície do Oceano Pacífico tropical na faixa equatorial – e a alteração no padrão de passagem das frentes frias podem intensificar esse bloqueio atmosférico e favorecer a ocorrência dessas ondas de calor. O aumento significativo na frequência e intensidade dessas ondas evidencia a influência das mudanças climáticas na amplificação dos eventos extremos de temperatura.
O maior problema dessas condições adversas de tempo são os impactos à saúde da população, em especial os mais vulneráveis, como crianças, idosos e pessoas com problemas renais, cardíacos, respiratórios ou circulação, diabéticos, gestantes e a população em situação de rua. Entre os principais possíveis impactos estão: a desidratação, que é causada pela exposição prolongada ao calor que leva a uma perda excessiva de líquidos, e a insolação, que pode ser fatal quando não tratada e ocorre quando o corpo é incapaz de regular sua temperatura interna, causando sintomas como confusão, convulsões e perda de consciência.
Falta de políticas públicas estruturais
Embora as ondas de calor afetem toda a cidade e as áreas mais quentes não sejam necessariamente as periferias geográficas, mas sim as regiões mais impermeabilizadas e com pouca vegetação, a forma como o poder público atua (ou se omite) faz com que a população de baixa renda siga sendo a mais exposta e a que menos dispõe de meios para se proteger. O Brasil abriga muitas cidades mal planejadas que, com pouca arborização e uma infraestrutura inadequada se tornam “ilhas de calor” para a população.
A falta de áreas verdes é um dos fatores que agravam as ondas de calor. Segundo Helena Ribeiro, esses espaços são fundamentais para atenuar os extremos climáticos: “O planejamento de espaços verdes em bairros de renda média e baixa é importantíssimo, a meu ver, não só por atenuar os extremos climáticos, como para diminuir enchentes e deslizamentos de terra, mas sobretudo para o bem-estar e a saúde física e mental das comunidades que neles vivem”. Além disso, esses espaços contribuem muito para a socialização e integração dos moradores, possibilitando um estilo de vida mais saudável para a população vulnerável.
Apesar de políticas públicas serem essenciais no enfrentamento dos efeitos das mudanças climáticas, as iniciativas voltadas à população em situação de rua ainda são, em geral, pontuais e emergenciais. Quando existem, costumam funcionar apenas em caráter contingencial, ativadas em episódios extremos e depois descontinuadas, em vez de integrarem uma política permanente de cuidado e proteção diante de uma crise climática que deixou de ser exceção para se tornar parte da rotina das cidades.
Como se proteger das ondas de calor?
Por meio do site oficial, o Governo brasileiro orientou a população a adotar cuidados pessoais e coletivos para reduzir os impactos do calor extremo no cotidiano. A principal recomendação é manter-se hidratado, principalmente nos dias mais quentes e mesmo quando não há sensação de sede. Também é importante evitar bebidas alcoólicas e com cafeína, que podem favorecer a desidratação. Sempre que possível, procure manter os ambientes o mais frescos possível, usando ventiladores, deixando janelas abertas nos horários mais amenos e, quando viável, buscando locais com ar-condicionado em espaços públicos, como shoppings, centros culturais e equipamentos comunitários.
“Muitas cidades do mundo têm criado centros de refrigeração para que seus moradores possam passar algumas horas do dia em ambientes frescos e se recuperar. Geralmente são estádios, bibliotecas, centros comunitários”
— Helena Ribeiro
Apesar das estratégias para se manter resfriado nos dias quentes, algumas ações podem piorar a situação a longo prazo. Mesmo que os condicionadores de ar mantenham o interior fresco, eles só aumentam o calor ao ar livre, contribuindo, na maioria dos casos, para a crise climática, aumentando as emissões responsáveis pelo aquecimento do planeta. O mesmo acontece com os meios de transporte. Quando se escolhe o carro movido a gasolina no lugar do transporte público, o calor e as emissões também aumentam.
Uma das alternativas é a ventilação natural, que age como um ventilador, resfriando a temperatura corporal, reduzindo o estresse do organismo e minimizando a sudação. “A ventilação natural é bastante benéfica sobretudo quando há brisa marítima, ou de represas, ou de áreas florestadas, que intensifica a velocidade do vento por conta da diferença de temperatura e também da umidade que traz, intensificando a evaporação e reduzindo o calor”, finalizou Helena.
