Futebol feminino evolui, mas o histórico é de negligência

Faltando menos de dois anos para a Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil, o futebol feminino brasileiro precisa de mais apoio para continuar evoluindo na categoria

Por Breno Macário, Davi Milani e Vanessa Ramos

Foto: Fabio Souza/CBF

Assim como o esporte feminino no geral, o futebol feminino tem crescido nos últimos anos e vem conquistando cada vez mais audiência do público. Apesar desse crescimento, ainda há um grande contraste de investimentos, de estrutura e popularidade entre o futebol masculino e feminino. 

As janelas de transferências de 2025 trouxeram consigo um forte indicador da evolução econômica do futebol feminino: só neste ano, o recorde de transferência de jogadora mais cara foi batido cinco vezes. O investimento de patrocinadores também deve crescer no esporte feminino como um todo. Um estudo realizado pela Women’s Sport Trust (WST), de 2024, indica que 80% das marcas entrevistadas estão interessadas em investir em esportes femininos nos próximos 3 anos. Segundo o levantamento, 85% das marcas que já patrocinam pretendem manter seus investimentos.

No Brasil, a primeira divisão feminina do Brasileirão de 2025 teve cotas de participação recordes, com um aumento de 20% em relação ao ano anterior. A final do campeonato brasileiro deste ano, entre Cruzeiro e Corinthians, contou com audiência nunca antes vista, mais de 228 mil espectadores assistiram ao jogo decisivo pela TV. No estádio do segundo jogo da final, a Neo Química Arena, 41 mil torcedores marcaram presença. Além disso, a audiência de todo o campeonato aumentou em 41% em 2025, de acordo com a Kantar Ibope Media.

A ocasião marcou o sétimo título de Campeonato Brasileiro da equipe corinthiana – Foto: Reprodução/Corinthians

Apesar do crescimento, o futebol feminino no Brasil ainda passa por problemas. Em 2025, a CBF trouxe de volta a Copa do Brasil feminina, que não acontecia desde 2016, porém, o retorno não contou com nenhum patrocinador. O campeão Palmeiras recebeu, como premiação pelo título, R$1 milhão. O atual campeão da Copa do Brasil masculina, Flamengo, recebeu R$93 milhões com o título conquistado em 2024. 

O clube carioca é um dos brasileiros que mais arrecada dinheiro e tem um dos melhores centros de treinamento do Brasil para o futebol masculino. Em 2024, segundo o Relatório Convocados 2025, um estudo anual que analisa a saúde financeira dos clubes de futebol do Brasil, o Flamengo teve uma receita de R$1,2 bilhão. 

Por outro lado, a equipe feminina do rubro negro, que não treina no mesmo lugar do futebol masculino, conta com problemas estruturais. Em outubro, Renata Mendonça, comentarista do SporTV, denunciou nas redes sociais a estrutura precária do centro de treinamento que o time feminino utiliza. No vídeo,  que já ultrapassa as 400 mil visualizações, a comentarista aponta problemas no vestiário, na qualidade do campo, na academia e em outras instalações utilizadas pelas jogadoras. No mesmo mês da postagem do vídeo, o Flamengo anunciou a diminuição de investimento no time feminino. 

As categorias de base dos principais clubes do Brasil também estão em uma situação ruim. De acordo com o Diário do Futebol Feminino, apenas 6 dos 20 clubes da série mantém as três principais categorias de base do futebol feminino, que são: sub-15, sub-17 e sub-20. O investimento nas categorias de base é importante para que os clubes formem e preparem novas jogadoras para o futebol brasileiro. A fragilidade da base compromete a formação de novas atletas e limita o desenvolvimento do esporte feminino no país.

Mudanças no futebol feminino

A CBF anunciou no dia 24 de novembro o calendário do futebol feminino para 2026. Aline Pellegrino, ex-futebolista da Seleção Brasileira e atual Coordenadora de Futebol Feminino da CBF, apresentou as mudanças e novidades, que envolvem aumento de jogos, mudança nos formatos das competições, aumento de premiações e auxílio financeiro para atletas lactantes, que poderão levar seus filhos para as viagens, com os custos assumidos pela Confederação.

Além disso, os investimentos em categorias de base serão ampliados, com destaque para o fomento dos campeonatos estaduais sub-15, sub-17 e sub-20. Mais datas, aumentos nas cotas de participação, isenção das taxas de registro de vínculo para jogadoras não profissionais em todas as competições femininas, entre outras medidas. O investimento nos estaduais, principalmente, descentraliza a força do futebol feminino de São Paulo e dá abertura para a ascensão de novos times e novos talentos.

“Temos que ter o pé no chão, porque sabemos que o histórico do futebol brasileiro, sobretudo feminino, é de muita negligência. Mas o começo [da nova gestão da CBF] é animador”

— Rafael Alves, criador e editor-chefe da página Planeta Futebol Feminino

O futebol feminino, assim como esportes olímpicos, também sofrem consequências da má gestão do futebol masculino, uma das principais entradas de receita dos clubes. Por exemplo, o Corinthians mantém uma das maiores folhas salariais no futebol masculino, enquanto encerrou outras modalidades, como fez recentemente com o basquete (masculino e feminino, tanto profissional como de base), com o intuito de poupar verba.

Em entrevista ao Portal Central Periférica, Rafael Alves, editor-chefe e criador da página Planeta Futebol Feminino, comenta que “existem muitos homens no comando, em posições de governança, e muitos têm essa visão de que o futebol feminino é gasto, não é investimento”. Alves ainda destaca que o grande desafio é romper com esse ciclo, sugerindo “promover  e estimular ideais, fazendo com que esses clubes tenham vantagens em ter um departamento de futebol feminino”.

O Brasil se prepara para sediar a Copa do Mundo de Futebol Feminino em 2027, e carrega a responsabilidade de honrar sua tradição na categoria e de ser uma referência na produção de novas atletas, inovação e respeito ao esporte. No dia seguinte em que acabar a Copa, milhares de garotas vão querer jogar bola. Garotas de 6, 7, 8 anos vão querer jogar bola. A gente vai ter onde abrigar essas meninas? A gente vai ter praças suficientes para atender essa demanda?”, questiona Alves.