Invisíveis: Elitização afasta comunidade de escolas de samba e muda o rosto do Carnaval
Enquanto ingressos sobem e a festa ganha “glamour”, trabalhadores negros e periféricos, que sustentam o Carnaval desde sua origem, seguem invisibilizados e cada vez mais distantes da avenida
Por Patricia Rodrigues e Pedro H. de Santana
O carnaval é uma festa popular brasileira que tem a sua origem na fusão de tradições europeias. Porém, o espetáculo também é uma expressão que desenvolveu as identidades culturais devido aos esforços da população negra e periférica. Foram as diversas costureiras, aderecistas, pintores, serralheiros, carpinteiros, figurinistas, artistas de alegoria e pessoas que empurram os carros durante os dias de desfile que sustentaram o protagonismo do samba mesmo sob fortes preconceitos e estereótipos que sofreram ao longo do tempo.
Historicamente, esses membros eram moradores da comunidade do entorno das escola, em grande parte dos casos em periferias, que transformaram isopor, tecido, madeira, metal nos exuberantes carros alegóricos e nas fantasias transcendentais que ainda enfeitam os meses de fevereiro ou março pelo país.
Segundo pesquisa do Instituto Datafolha de 2025, em parceria com a Amstel e a Liga-SP, 54% dos trabalhadores que atuam nas escolas de samba da capital paulista são autodeclarados negros, sendo 30% de pessoas pretas e 24% de pardos. Além disso, 55% são mulheres.
De acordo com Flávio Augusto Junior, Mestre de Bateria da Combinados do Sapopemba, com a popularização dos desfiles, o perfil de participantes e de público foi mudando aos poucos: “Com o crescimento dos desfiles e a profissionalização do Carnaval, o perfil se diversificou. Hoje há maior presença de pessoas de classes sociais mais altas e com maior nível educacional, o que ampliou a estrutura do espetáculo, mas reduziu parcialmente o protagonismo da comunidade tradicional”.
É nos barracões espalhados pela capital paulista que todo o trabalho duro do espetáculo acontece. Nesses lugares, o trabalho intenso se acumula, com costureiras produzindo durante horas e artesãos focados em cada minúsculo detalhe das fantasias e alegorias. Essa rotina de prazos apertados e longas horas de trabalho raramente ganha o mesmo destaque que os rostos que “representam” o evento. Para quem está por trás de tudo, o carnaval começa meses antes dos desfiles no Sambódromo do Anhembi. É um processo contínuo que começa logo após o encerramento da edição anterior, exigindo dedicação psicológica, física e disposição social, mas que não é visto.
“A invisibilidade desses trabalhadores continua muito forte. Quem ganha maior projeção hoje são figuras midiáticas que usam o Carnaval como vitrine, enquanto costureiras, artesãos, ferreiros, aderecistas e toda a base que mantém a escola de pé seguem fora do foco. Isso distorce a percepção pública, fazendo o Carnaval parecer apenas um produto de entretenimento, e não o resultado de um trabalho comunitário profundamente enraizado na periferia”, reflete o mestre da Bateria.
Atualmente, a questão da representatividade no carnaval é também um aspecto a ser observado. A elitização e a glamourização de uma festa popular, principalmente nos sambódromos e avenidas, pode levar a falta de representatividade negra e periférica em cargos de alta importância e visibilidade dentro das escolas de samba. O mestre Flávio declarou que, atualmente, o carnaval não está garantindo a devida representatividade para as populações que tradicionalmente ajudaram a formar essa festa popular da forma como ela é conhecida mundialmente.
“O padrão mudou, e a presença de lideranças negras, que historicamente estruturam o Carnaval, tornou-se proporcionalmente menor. Isso cria um desalinhamento entre a origem da festa e quem a representa institucionalmente”
— Flávio Augusto Júnior
Com a alta glamourização e elitização dos desfiles de carnaval que acontecem nos sambódromos do Brasil, também o acesso a esses desfiles se torna mais elitizado e inacessível para populações de baixa renda. A lógica comercial e mercantilista que passa a dominar o evento, que anteriormente era sustentado principalmente pelas classes populares, impacta diretamente quem pode ou não estar presente nas arquibancadas.
Essa transformação também se reflete nos números. No Carnaval de 2025, no Sambódromo da Marquês de Sapucaí (Rio), os ingressos de arquibancada variaram de R$ 190 a R$ 230, valores já altos para grande parte da população periférica. O ingresso mais barato para o espetáculo de 2026 pode ser encontrado por valores de até R$10, mas em uma localização desfavorecida.
Em São Paulo, o aumento dos investimentos reforça essa tendência: a verba municipal destinada aos desfiles subiu de cerca de R$ 82 milhões em 2023 para mais de R$ 100 milhões em 2025. Para cobrir este aumento de verba, a prefeitura pressiona os preços de bilheteria e dos pacotes premium. Assim, o espetáculo cresce, mas também se distancia de quem historicamente deu vida a ele.
Segundo Flávio Augusto Júnior, o maior impacto dessa elitização é o afastamento de quem historicamente construiu o Carnaval, o que enfraquece a transmissão cultural e a renovação das escolas, que vão perdendo espaço para os blocos de rua, que são gratuitos, mas sem o mesmo nível de responsabilidade comunitária: “Existem exceções, claro, mas o ponto central é outro: de que adianta resgatar essa identidade se o próprio povo que deveria se ver representado não consegue estar presente no sambódromo? Enquanto a base histórica das escolas estiver afastada dos espaços que sempre ocupou, essa retomada corre o risco de ser simbólica demais e vivida de menos”, completa.
