O Doméstico é Político

O trabalho precarizado de cuidados

Por Gabriela Braga, Patricia Rodrigues e Pedro H. de Santana

Foto: Central Periférica/Gabriela Braga

Com o slogan “Cuidar é o trabalho que sustenta o mundo”, o Governo Federal anunciou em março que sairá em breve o Plano Nacional de Cuidados, batizado de “Brasil que Cuida”. A nova Lei nº 15.069/2024, que institui a Política Nacional de Cuidados, reconhece o cuidado como direito e busca reorganizar essa distribuição entre Estado, famílias, mercado e a sociedade. O objetivo é garantir direitos e promoção de políticas para quem necessita de cuidados e para quem cuida de forma não remunerada. Algumas das propostas são:

  • Serviços de atenção domiciliar a pessoas idosas e com deficiência; 
  • Centros dia para pessoas idosas e pessoas com deficiência; 
  • Lavanderias coletivas, restaurantes populares, serviços que diminuam o tempo dedicado ao cuidado indireto;
  • Formação sobre cuidados.

O termo “Trabalho de cuidados” refere-se a atividades (remuneradas ou não) que envolvem cuidar de pessoas, sejam idosos, crianças, pessoas com deficiência ou com necessidade de maior assistência. De acordo com dados do PNAD 2023, no Brasil, 6.4 milhões de pessoas realizam atividades de cuidado ou/e trabalho doméstico cotidiano. 93% delas são mulheres e 65,4% são negras.

As horas de dedicação dessas brasileiras não aparecem em estatísticas oficiais de empregos ou renda – embora, em alguns casos, sustentem famílias e comunidades. Em bairros periféricos, onde o acesso a serviços públicos é limitado, esse trabalho informal possui ainda mais peso. Sem a possibilidade de contratar ajuda, sem transporte adequado para hospitais de qualidade, as mulheres se veem divididas entre diversas jornadas: emprego formal ou informal, tarefas domésticas e, em grande parte das situações, cuidado integral de pessoas dependentes. As periferias sofrem com a escassez de infraestrutura, como a falta de creches suficientes para a demanda, centros de convivência de idosos e equipe especializada de cuidadores de forma gratuita.

Segundo levantamento do IBGE de 2022, a população com 65 anos ou mais cresceu exponencialmente desde 2010, chegando a 22.169.101 (representando 10% dos brasileiros). Conforme o Brasil envelhece, a demanda pelo cuidado cresce em todas as regiões e as periferias sentem o maior impacto. A vida dos cuidadores, principalmente dos informais, é frequentemente tomada pela jornada dupla ou até mesmo tripla: além do empenho constante, sofrem com o isolamento social, interrupção dos estudos e carreira, estresse psicológico e o sentimento de invisibilidade de suas ações diante à sociedade. Para os mais pobres, essa sobrecarga pode tornar-se ainda mais brutal, com transporte público precário, falta de insumos essenciais para a realização do cuidado e más condições de moradia.

No fim do túnel, surge uma nova perspectiva profissional que pode ajudar na valorização dessa ocupação: o crescimento do oferecimento de carreiras especializadas no cuidado com o próximo como a gerontologia, fisioterapia, terapia ocupacional, além de cursos que profissionalizam e especializam cuidadores. Além disso, agora a lei da Política Nacional de Cuidados promete mitigar a situação por meio de assistência e apoio de órgãos públicos e da sociedade para aqueles que doam suas vidas para o exercício desse trabalho. 

Conversa com a ativista do Movimento Autônomo de Mães, Rosilene Costa

Foto: Divulgação/Jana Regis

Para conversar sobre o trabalho de cuidados, o Central Periférica entrevistou Rosilene Costa, professora, doutora em Literatura, ativista do Movimento Autônomo de Mães (MAMA-DF). Ela que, além de ser mãe, possui 26 anos de docência e atua agora na gestão de políticas públicas educacionais e escreve para veículos como o Brasil de Fato. Edilene conta que este movimento de mulheres surgiu no contexto da pandemia, com a descoberta de que o leite materno de mulheres imunizadas contra a Covid protegeria também as crianças amamentadas. O que deu início, em 2021, a uma luta por prioridade de vacinação a lactantes, que resultou na aprovação de 106 leis municipais e estaduais que garantem tal direito.

Esse coletivo se desdobra no MAMA, que reúne hoje em torno de 550 mães no Distrito Federal, reivindicando, entre outras pautas, a luta pelo cuidado compartilhado, ou seja, uma igualdade entre licença paternidade e maternidade. A professora explica a pauta da parentalidade como “ações para que todos os pais (pai e mãe) se responsabilizem pelo cuidado das crianças”, mas aponta que o Brasil ainda está muito aquém desta proposta: “Nós temos uma legislação no Brasil que nem tem a licença-paternidade. A Constituição de 88 só deu cinco dias, mas o Congresso não regulamentou. E agora, neste ano, o Supremo Tribunal deu um prazo, que era até julho, para que o Congresso regulamentasse”. E mesmo que finalmente essa regulamentação aconteça, ela é ainda extremamente atrasada: “Cinco dias é completamente insuficiente, é muito injusto com a mulher. Porque quando a gente diz que o homem fica cinco dias e a mulher fica 120, ou 180, a gente está dizendo que quem tem que cuidar sozinha é a mulher”

A entrevista foi realizada antes da aprovação pela Câmara dos Deputados, em 04 de novembro, de um aumento gradual de licença paternidade, que alcançará 20 dias em três anos. O projeto inicial propunha 30 dias, mas foi alterado por falta de acordo entre os deputados. Mas, como lembra Rosilene, a quinta Conferência das Mulheres definiu 60 dias como tempo mínimo para a licença paternidade. “Então, hoje nós estamos numa luta junto ao Congresso Nacional, inclusive com o governo, porque há um projeto de apenas 30 dias. E nós queremos 60 para que a gente chegue em licenças iguais”.

Os impactos da equidade de gênero nos cuidados com os recém-nascidos também abarcam questões para fora do lar: “A gente também busca que isso traga menos discriminação para a mulher. Há empresas que não contratam mulheres jovens pelo risco delas engravidarem e ficarem em licença. Porque há mulheres que voltam da licença e elas são mandadas embora. Então, no momento que homens e mulheres tiverem licenças iguais, além de a gente trazer a divisão do cuidado, que é justa para as mulheres, além de a gente oportunizar que as crianças convivam mais com seus genitores, nós teremos também uma divisão mais justa no mercado de trabalho”.

Durante a conversa, Rosilene relata histórias de mulheres que cuidam e encontra nelas algo em comum: todas estão sobrecarregadas e com a saúde mental abalada. Como por exemplo, uma mãe do movimento que após ser abandonada pelo companheiro, precisa cuidar sozinha de duas crianças, uma delas autista, além de sua mãe idosa e acamada. Pesquisas também apontam uma alta frequência de mulheres que foram abandonadas por seus parceiros após receberem algum diagnóstico grave, como câncer. 

Para Rosilene, o machismo estrutural é um dos pilares que sustenta a desigualdade de gênero no trabalho de cuidados: “O cuidado está lá no primeiro brinquedo que muitas meninas recebem: uma boneca. E elas têm que fazer o quê? Colocar aquela boneca para dormir, dar mamazinho para aquela boneca, tem que cuidar da boneca”. Já a situação dos meninos é muito diferente: “O primeiro brinquedo deles é um carrinho para que eles possam ir para bem longe, viajar o mundo, conhecer lugares, desbravar coisas”. Esse modelo arraigado nos hábitos desde a primeira infância acaba por educar as mulheres para assumir as tarefas de cuidados, enquanto os homens possuem altos índices de abandono de tais responsabilidades. 

A professora também analisa que há uma diferenciação do ponto de vista social e racial, já que famílias com maior poder aquisitivo contam com a possibilidade de contratação de serviços de cuidados, geralmente mal-remunerados e exercido por mulheres pobres e periféricas: “E, no Brasil, a pobreza, ela tem cor de pele. A maior parte das pessoas pobres são pessoas negras. Então, a gente pode dizer sim que as mulheres negras são as que mais sofrem hoje com essa falta de uma política de cuidado definida, essa falta de valorização do trabalho do cuidado”. Ela escreveu sobre o tema no artigo de opinião “O trabalho invisível das mulheres negras” no Brasil de Fato.

Nesse sentido, a ativista aponta a necessidade de direitos trabalhistas e previdenciários para cuidadores, sejam eles familiares ou prestadores de serviços: “Nós precisamos de uma mudança na legislação trabalhista. O cuidado precisa ser reconhecido como trabalho. Então, aquela mulher que talvez nunca tenha saído da casa dela para trabalhar, mas que cuidou a vida inteira dos filhos e agora cuida dos seus idosos, ela precisa ter esse trabalho reconhecido”. No caso do cuidado a pessoas com deficiência, a ativista lembra que o auxílio BPC se destina apenas a quem recebe os cuidados, mas muitas vezes sustenta também a cuidadora. Porém, o benefício é perdido em caso de morte da PCD, deixando a cuidadora sem qualquer fonte de renda. 

Em relação a políticas públicas que poderiam mitigar a sobrecarga feminina no trabalho de cuidados, Rosilene lembra que “o Estado hoje não atende nem a creche. Nós não temos uma cobertura de creche para todas as crianças. Isso não é um serviço universalizado no Brasil. A maior parte dos municípios não têm o serviço de creche sendo ofertado para 100% das crianças”. Ela também comenta sobre a reduzida oferta de serviços para PCDs, como por exemplo os Centros-Dia, e a quase escassez de espaços de acolhimento a idosos: “Quando se trata de pessoas idosas, a situação é ainda mais alarmante. Hoje nós somos um país que envelhece, mas um país que não tem ainda uma política definida desse bem-envelhecer, considerando que algumas pessoas idosas precisarão desse apoio.”

Quanto ao novo programa federal, Rosilene comenta que ele “ainda está no início, a gente precisa avançar muito e precisa avançar rápido para que não sobrecarregue outras pessoas”. Para ela, a proposta também teria um efeito educativo: “Para além de induzir projetos e ações concretas da política pública, ela começa a mudar também a mentalidade das pessoas”. Além disso, ela adverte que é necessário também “uma coordenação federativa que diga como os estados e municípios deverão agir”.

Como o trabalho de cuidados vem migrando da esfera doméstica para a pública

Foto: Central Periférica/Gabriela Braga

Ao longo da história, parte do trabalho de cuidados relegado especialmente às mulheres passou por um processo de institucionalização e profissionalização, deixando de ocorrer apenas na esfera doméstica e privada, transferindo-se para locais de acolhimento coletivo. Foi o que aconteceu com o cuidado de crianças e doentes, a partir do advento de creches, escolas e hospitais. 

O cuidado de pessoas adoentadas, por exemplo, por muito tempo se deu majoritariamente por meio de visitas médicas às residências dos enfermos, cabendo às mulheres da família ministrar os tratamentos prescritos. Os primeiros hospitais eram inicialmente instituições que mesclavam religião e serviços de caridade, apenas a partir do Renascimento passaram a ser organizados pelo Estado e pautados na medicina científica, provocando uma revolução na área de saúde que possibilitou a erradicação de doenças e um expressivo aumento da expectativa de vida da população, além de liberar as mulheres de parte desta carga de trabalho. 

Também o cuidado das crianças pequenas foi por muito tempo uma tarefa estritamente feminina e inscrita nos lares. Com a Revolução Industrial e a entrada das mulheres no mercado de trabalho, foram criadas as primeiras instituições para os pequenos, que ainda eram vistos apenas como “miniaturas de adulto”. Após a Primeira Guerra Mundial surgem os primeiros estudiosos sobre as especificidades da primeira infância, como Maria Montessori (1870–1952), Jean Piaget (1896–1980) e Lev Vygotsky (1896–1934), que revolucionaram o campo de desenvolvimento das potencialidades infantis. Seus estudos levaram também à formação dos cuidadores, surgindo assim as carreiras de pedagogia, psicologia infantil e licenciaturas.

Apesar disso, ainda prevaleceu por um longo período, o isolamento das crianças PCDs em instituições apartadas das demais ou a permanência sob cuidados domésticos. A partir da Declaração de Salamanca (1994) foram lançadas as bases da educação inclusiva que ainda está em desenvolvimento e aprimoramento. Fato é que desde então, tais crianças passaram a frequentar o ambiente escolar regular, o que promoveu uma melhoria significativa na inclusão de PCDs na sociedade e uma maior liberdade para seus cuidadores. O que ainda está longe de ser o ideal, mas segue caminhando na ampliação de direitos. 

Assim como os termos “infância” e “deficiência”, como conhecemos hoje, foram construídos ao longo do tempo, também o que entendemos por envelhecimento vem passando por um processo de busca de melhor compreensão. Na esfera do acolhimento aos idosos ainda há muito para se avançar, tanto do ponto de vista científico, como do social. Da mesma forma que a primeira infância passou a ter um campo de estudo próprio, também a terceira idade começa a ter uma linha científica própria, a gerontologia, além de especializações em fisioterapia, terapia ocupacional, neurociência, entre outras. Provando que o envelhecimento não está mais circunscrito ao ambiente doméstico e nem à ideia de decadência. 

Neste sentido, assim como hospitais e creches foram instituições criadas para dar conta de novos avanços científicos e sociais, o aumento da população 60+ requer também novas formas de acolhimento coletivo para além de antiquados asilos ou casas de repouso, onde idosos são muitas vezes abandonados. Ao contrário, são necessários locais, tanto de curta como de longa permanência, nas quais este público possa encontrar uma equipe multidisciplinar para realizar não só tratamentos, mas também atividades voltadas para esta fase da vida, que possibilitem a sociabilidade, a formação de vínculos afetivos e o desenvolvimento de suas potencialidades, após a entrada na aposentadoria, momento de ruptura abrupta em suas vidas. 

O impacto da disseminação deste tipo de instituição seria revolucionário tanto para o processo de envelhecimento, como também para a redução da carga de trabalho de cuidados que ainda recai sobre as mulheres, já que ele seria compartilhado coletivamente com a sociedade. Já existem exemplos disso, especialmente na Europa e nos EUA onde o envelhecimento da população é ainda mais acelerado. Porém ainda pouco se fala em tornar este serviço uma obrigação do Estado, assim como são as creches, escolas e hospitais, o que seria uma forma efetiva de democratizar o acesso, já que o envelhecimento é menos assistido nas famílias de baixa renda e o trabalho de cuidados recai com mais intensidade sobre mulheres periféricas.